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Quem faz o agro

Vivian: coragem e pioneirismo

Com 5 anos ela já andava a cavalo, com 13 dirigia trator, superou uma tragédia familiar, desenvolveu uma nova raça bovina e é uma das vencedoras do Prêmio Mulheres do Agro 2019

25.11.2019 - Por Bayer Jovens

Vivian de Freitas Machado Oliveira é ousada. Depois de assumir a direção de duas fazendas em Tocantins e perceber que precisava encontrar uma maneira de agregar valor às propriedades, ela simplesmente decidiu investir em uma raça bovina japonesa desconhecida no Brasil, sem contar com nenhum estudo relacionado à sua adaptação às condições do país. “Tive de encarar tudo sozinha, sem parâmetros, sem apoio nenhum, nada, e fazer todos os testes”, ela conta.

Sete anos depois, Vivian se tornou referência obrigatória quando se fala em Wagyu Akaushi no país e foi responsável pelos primeiros cruzamentos experimentais da raça com a zebuíno nelore. Hoje, ela detém o registro da marca de carne Akaushi Brasil e possui um rebanho com 260 fêmeas, criadas em sua fazenda com 810 hectares, em Barra do Ouro (TO), no que chama de “projeto akaushi” e pode ser conferido na conta que mantém no Instagram.

Esse pioneirismo foi um dos motivos pelos quais Vivian se classificou em primeiro lugar na categoria Médias Propriedades do Prêmio Mulheres do Agro, idealizado pela Bayer, cujos troféus foram entregues no dia 9 de outubro. Mas houve vários outros motivos que a levaram a ser escolhida, a começar pela sua coragem em seguir em frente depois de uma tragédia que virou sua vida de cabeça para baixo.

Vivian nasceu e cresceu na fazenda do pai, Orlando Machado, que era de Iporá, em Goiás, e foi para Tocantins em 1970. Pouco a pouco ele foi adquirindo terras na região da Araguaína e, ao lado da esposa, Mirenice, tornou-se pecuarista. Orlando tinha três filhos de um casamento anterior, mais dois do segundo, e tratava todos os cinco da mesma forma, fosse menino ou menina: “Não tinha essa diferenciação”.

Vivian então se acostumou desde cedo a lidar com o trabalho no campo. “A gente morava em Araguaína, mas passava todas as férias e feriados na fazenda. Por exemplo, eu nunca brinquei carnaval porque sempre íamos para a fazenda”, ela lembra. “Eu ia para o curral desde pequenininha mesmo, montava a cavalo, tinha de ajudar a campear o gado, vacinar e tudo o mais. Quando meu pai comprou trator, eu tinha que montar no trator, roçar, arar, tudo.”

Com 1 ano de idade ela já andava a cavalo, com o pai: “Sozinha, eu andava a cavalo desde os 5 anos. Com 13 já estava no volante do trator. A gente fazia roças de toco e plantava arroz, feijão, amendoim, abóbora, abacaxi, melancia, um pouco de tudo. Até o café que a gente consumia era plantado na fazenda. Eu colhia com a mamãe, e com ela aprendi a fazer também todas as coisas da casa, do começo ao fim. Por exemplo, para fazer polvilho, a gente plantava a mandioca, colhia, ralava e fazia todo o processo, até chegar ao pão de queijo. Nós assumíamos responsabilidades muito mais cedo do que hoje”.

Nessa rotina de menina de fazenda, Vivian foi crescendo e resolveu fazer faculdade de direito, especializando-se na área ambiental, sempre em contato com as atividades rurais. Ela se casou e a vida seguia tranquila, até que em julho de 2010 o pai e a mãe morreram em um acidente de carro. Foi um choque brutal, do qual só começou a se recuperar quando voltou às origens.

“Quando perdi papai e mamãe entrei numa crise depressiva muito profunda. Meu marido então me levou para a fazenda, e foi quando comecei a melhorar, a voltar. Aí, como já estava na fazenda, decidimos ter um filho, e nasceu Cecília”. Assim como Vivian, Cecília foi criada na fazenda, “sem diferenciação”, e — como a mãe — é corajosa. “Ela já ajuda no curral, em tudo. E é um perigo. Ela não tem medo da vacada parida e a gente tem que vigiar o tempo todo porque, se deixar, ela entra no curral sem nenhum problema. Quando completou 4 anos, ela teve de ir para a escola, mas contra a sua vontade. Ela diz que vai pedir ao presidente para ele colocar uma escola boa na fazenda para ela não precisar morar na cidade”, conta Vivian.

Com a morte dos pais, as propriedades da família foram divididas entre os filhos. Coube a Vivian a fazenda em Barra do Ouro e outra em Bernardo Sayão, também em Tocantins, essa menor, com 414 hectares. Para os padrões da região de Araguaína, chamada de “capital do boi gordo”, são áreas pequenas para explorar a pecuária de corte. Foi quando Vivian partiu para o “projeto akaushi”, com a cara e a coragem.

Hoje, nas duas fazendas, ela tem 600 vacas matrizes, de cria, mais os bezerros que ela comercializa, e só agora alguns animais estão sendo engordados para corte. O rebanho que resultou do cruzamento com a raça japonesa é formado por 160 fêmeas F1, que têm 50% de sangue nelore, e em torno de 100 vacas três quartos, que são 75% akaushi e 25% nelore. Em números parece pouco, mas em qualidade e pioneirismo a avaliação é diferente.

A introdução da linhagem japonesa no Brasil começou com uma pequena e desagradável surpresa, como conta Vivian: “Primeiro vieram quatro embriões para a Yakult, só que os quatro nasceram machos e não foi possível dar prosseguimento à raça. Depois, houve outras experiências feitas por empresas estrangeiras, mas foi só em 2016 é que chegaram os primeiros animais puros. “Quando foi feita a partilha eu precisava agregar valor, senão a gente não conseguiria se manter na atividade e teria que vender. E não queríamos vender. Quando a gente buscou o akaushi foi com o objetivo de agregar valor. Uma empresa nos ofereceu uma parceria em que ela nos vendia o sêmen e garantia a compra dos bezerros com um valor melhor do que o nelore, então iniciamos o projeto”, explica Vivian.

Ao mesmo tempo, ela decidiu adotar boas práticas em suas fazendas: “Costumo dizer que nossa pecuária não é apenas sustentável, e sim uma pecuária cíclica e harmônica. É um pouco além de sustentável. Minha propriedade respeita todas as normas ambientais vigentes. Aqui no Tocantins você tem de manter 35% de reserva legal, e com as áreas de proteção permanente, eu preservo 40% da propriedade”.

Com essas atitudes e a experiência e garra adquiridas nos currais do Centro-Oeste brasileiro, Vivian é uma grande representante da força, garra e determinação das mulheres que contribuem para a grandiosidade do setor agropecuário brasileiro.