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Vai se fantasiar de quê?

Cuidado com sua escolha, pois você pode, mesmo que na maior inocência, praticar uma apropriação cultural que não é nada bacana

09.02.2018 - Por Bayer Jovens

Fantasia é pura imaginação, é ser por um momento o que a gente não é, e não há ocasião melhor para isso do que o Carnaval, quando dá para se transformar no que quiser nos blocos, nos bailes e nas festas: super-herói, palhaço, pierrô, colombina, sereia, fada, pirata, havaiana, nerd, marinheiro, presidiário e até Jason ou Freddy Krueger. Sem nenhum tipo de limite, porque vale tudo no Carnaval, certo? Mais ou menos.

Hoje não dá mais para pensar assim, e é preciso deixar de lado a suposta falta de bloqueios dos dias de Carnaval para pensar no outro, na pessoa que inspirou a fantasia – sim, existe o outro, que talvez se sinta ofendido pela maneira como sua identidade se torna uma fantasia caricata. O nome disso é apropriação cultural, um tema relativamente novo para o grande público e que merece se tornar objeto de reflexão neste Carnaval e nas atitudes do dia a dia.

“Mas qual é o problema em me fantasiar de índio se só o que eu quero é me divertir?”, algumas pessoas podem perguntar. Perguntem então o que os índios pensam ao ver um branco com o rosto pintado e um cocar na cabeça que não tem nada a ver com a realidade deles, geralmente problemática e muito distante dessa imagem estereotipada. Ou perguntem o que acha alguém da raça negra ao ver um branco com o rosto pintado ao estilo blackface ou com roupa de “nega maluca” e peruca black power. Ou um legítimo cigano quando vê alguém com bandana, mil colares e pulseiras e roupas coloridíssimas – “Será que essa pessoa fantasiada tem alguma ideia do que é a cultura cigana?”, ele deve se perguntar.

E não para por aí, claro. É preciso pensar no que pensam os judeus, os árabes e os orientais, assim como as baianas, os transexuais e até mesmo as mulheres quando se veem representadas de maneira grotesca e pejorativa em fantasias masculinas que exageram nos detalhes. São estereótipos capazes de ofender o outro, e é isso o que está em questão: o outro, que merece ser respeitado, mesmo que séculos de práticas e costumes tenham ignorado essa questão.

Apropriação cultural tem muito mais a ver com respeito do que com limitação ou com o conceito do politicamente correto. E a pergunta-chave é esta: realmente preciso me fantasiar de índio, de negro ou de cigano para sair no bloco? Porque, afinal, existem centenas de outras fantasias engraçadas e divertidas. E aí entra de novo a ideia da imaginação, sem ofensa a ninguém. As relações humanas se baseiam em dados culturais muito sutis, que podem variar de acordo com o país ou com a região, e perceber essas sutilezas é um talento que se adquire dia a dia. Também tem a ver com uma certa dose de bom-senso.

Assim como no caso das fantasias, as velhas marchinhas de Carnaval também passaram a ser avaliadas pelo seu conteúdo ofensivo, e hoje não dá mais para cantar versos como estes de Lamartine Babo: “O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega mulata/Mulata eu quero o teu amor”. Na origem, tudo parecia inocente, sem intenção de ofender, mas, convenhamos, mesmo para quem acha tudo isso um exagero, tem alguma coisa muito errada nesse “mas como a cor não pega”, é ou não é?

O tal do “politicamente correto” pode fazer algumas pessoas torcerem o nariz, mas não há como negar que já proporcionou avanços importantes nas relações interpessoais e no respeito ao outro, ao diferente. Já que existem centenas de fantasias criativas e milhares de marchinhas de carnaval, não é difícil evitar aquelas que, mesmo com pretensa leveza e sem má intenção, são capazes de ofender alguém. E, mesmo assim, divertir-se a valer até a Quarta-feira de Cinzas.