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Ciência

Um punk PhD na vanguarda do DNA

Ex-funcionário da NASA se torna cobaia em uma polêmica experiência de modificação do genoma humano

05.01.2018 - Por Bayer Jovens

 Com seu cabelo colorido e seus piercings, Josiah Zayne está fazendo barulho
Crédito/Imagem: SynBioBeta

O norte-americano Josiah Zayner, de 36 anos, já trabalhou na NASA, tem doutorado em bioquímica e biofísica pela Universidade de Chicago e se define como um biohacker, ou seja, alguém capaz manipular o corpo e os genes. Além disso, ele tem várias tatuagens, dez piercings em cada orelha e gosta de pintar o cabelo de cores diferentes. Mas não foi nada disso que o tornou conhecido, e sim sua decisão de manipular o próprio corpo, como uma cobaia humana.

No dia 4 de outubro, em uma conferência de biotecnologia em São Francisco, na Califórnia, Zayner aplicou nele mesmo uma injeção com CRISPR/Cas9, uma poderosa ferramenta de edição de genes, para “hackear” as células musculares do seu braço. “Não é que eu queira ficar musculoso. A questão é que essa é a primeira experiência na história de não sermos mais escravos da nossa genética. Não precisamos mais viver com a genética que ganhamos quando nascemos. Tecnologias como CRISPR e outras formas de modificação genética permitem que humanos adultos possam modificar as células do seu corpo”, afirmou Zayner, certo de que havia conquistado um espaço considerável na mídia especializada.

De fato, pelo que se sabe, pela primeira vez a ferramenta CRISPR foi aplicada em um ser humano. CRISPR é a sigla de Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, algo como repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas. É difícil entender e explicar o processo, mas o importante é saber que se trata de uma ferramenta que permite a modificação do genoma com muita precisão e vem sendo testada de diferentes maneiras pelos cientistas nos últimos anos, como uma técnica de edição genética.

Em tese, a ideia é muito atraente e com imenso potencial. Em contrapartida, o tema provoca intermináveis discussões a respeito de ética, religião e segurança, na medida em que a alteração do genoma humano e a mutação de genes podem ser usadas tanto para curar doenças e prolongar a videa como para construir armas biológicas ou até mesmo disseminar epidemias. Os cientistas contrários à popularização dessa técnica – o que é o objetivo de Zayner – afirmam que ainda não é possível prever com certeza os resultados de sua aplicação. Para a FDA, a agência responsável pelo controle de alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, a venda de kits de terapias genéticas por autoadministração é ilegal.

Zayner pensa de maneira diferente. Em entrevista ao jornal O Globo em dezembro, ele afirmou: “As pessoas se preocupam com os danos provocados por essa tecnologia, mas eu me preocupo com os milhões de pessoas que estão morrendo agora, que estão sofrendo e não têm acesso a esses recursos. As técnicas de edição genética existem há uma década, mas só agora foram testadas em uma pessoa. E levará ainda mais tempo para chegarem ao público. Quantas pessoas morreram nesses dez anos e poderiam ser salvas por essa tecnologia?”.

Em 2015, por meio de uma campanha de financiamento coletivo, ele criou a Odin, que passou a vender pela internet insumos e equipamentos relacionados à biotecnologia. A empresa oferece kits a preços baixos e incentiva as pessoas a experimentar as ferramentas de modificação genética – o site da Odin parece um supermercado do futuro.

Ainda não foram divulgados os resultados da injeção que Josiah Zayner se aplicou em outubro, mas o barulho que ele provocou foi bem alto. Com sua aparência assumidamente punk, bem diferente dos PhDs convencionais, Zayner pode ser tanto um visionário arrojado, que está abrindo caminhos inovadores para o tratamento de doenças e avanços na saúde, como alguém que não tem noção de limites e gosta de brincar com o perigo. Só o futuro – próximo – dirá, mas até lá é bom guardar o nome dele.

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