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Saúde e bem-estar

Um avatar contra a esquizofrenia

Estudo britânico propõe uma terapia revolucionária para dominar as vozes imaginárias que aterrorizam a pessoa com a doença

19.01.2018 - Por Bayer Jovens

A esquizofrenia é uma doença cruel e mais comum do que se imagina. No Brasil, estima-se que atinge mais de 2 milhões de pessoas, que podem ter delírios, alucinações e alterações do raciocínio e da afetividade, entre outros efeitos. Os esquizofrênicos têm ideias falsas nas quais acreditam com convicção, sentem-se perseguidos, acham que as pessoas leem seus pensamentos, veem perigo a todo momento e até ouvem vozes inexistentes, mas absolutamente reais para eles. E o pior: geralmente os outros duvidam do que dizem.

Ouvir vozes é um sintoma particularmente terrível, tanto que filmes e séries policiais colocam o distúrbio como motivo para muitos crimes: “Uma voz me mandou fazer isso”. Ficção à parte, as vozes imaginárias são uma verdadeira tortura, inimaginável para quem não tem a doença. Por isso a medicina busca há tempos uma explicação e um tratamento eficaz para esse tipo de alucinação, sem muito sucesso. Diferentemente do que ocorre na maioria das outras áreas médicas, o cérebro continua sendo um enigma para a ciência.

Isso explica por que chamou atenção o estudo publicado agora em janeiro pela revista científica britânica The Lancet, com as conclusões de um grupo de cientistas das universidades College London e King’s College London, da Inglaterra. Os pesquisadores foram além dos métodos convencionais de tratamento e usaram um avatar para ensinar os pacientes esquizofrênicos a enfrentar as vozes imaginárias.

O termo avatar remete, em primeiro lugar, ao filme com o mesmo nome dirigido por James Cameron, de 2009, e à identidade adotada por usuários da internet em jogos e em relacionamentos virtuais. No estudo dos cientistas britânicos, o avatar é uma simulação que, para o esquizofrênico, personaliza sua alucinação e o ensina a lidar com as vozes imaginárias e reduzir a frequência desses episódios. É um personagem virtual, criado com a ajuda do paciente.

Utilizando um computador e um software específico, os pesquisadores induziram um grupo de pessoas com esquizofrenia a ajudar a simular as características da voz que ouvem e um rosto imaginário de quem fala com elas. Assim, a voz ganha uma identidade física. A experiência mostrou que quem passou pela terapia ficou menos angustiado e passou a ouvir as vozes com menos frequência do que os pacientes submetidos aos tratamentos convencionais.

Os terapeutas assumiam o controle do avatar criado pelo paciente e conversavam com ele, estimulando-o a controlar o diálogo. O objetivo era levar o esquizofrênico a enfrentar a voz imaginária e passar a dirigir a conversa, até perceber que se tratava de uma alucinação e, assim, eliminar o poder e a sensação de realidade do falso interlocutor.

Os pesquisadores concluíram que essa abordagem original foi duas vezes mais efetiva do que os tratamentos convencionais, quanto à redução das alucinações. Mas eles mantêm a cautela, porque depois de seis meses os dois grupos apresentavam poucas diferenças nas reações. A conclusão do grupo de especialistas é de que será preciso desenvolver melhor a terapia com o avatar e reforçar o tratamento.

Mesmo assim, a reação da comunidade científica foi positiva, no sentido de que a nova técnica pode representar uma importante abordagem no tratamento da esquizofrenia, concentrada, principalmente, no ponto de vista do paciente.