Home > Sexualidade > Tira a mão da minha decisão!
Sexualidade

Tira a mão da minha decisão!

Mulheres têm autonomia para decidir se, quando, como e com quem fazem sexo

15.06.2018 - Por Nathalia Ziemkiewicz

“Tira a mão daí, menina!”. Talvez essa seja, pra muitas mulheres, a primeira e mais simbólica memória de repressão sexual - a de quando somos apenas crianças curiosas explorando o próprio corpo sem malícia. A gente cresce, descobre que ele é fonte de prazer e... continua sendo vigiado (mais que participante do Big Brother) por quem não aceita nossa autonomia pra dizer SIM ou NÃO diante de qualquer situação. Tira a mão da minha decisão e bota na sua consciência, sabe?

Decisão

Passei um bom tempo pensando nisso por causa da campanha “Ela decide seu Presente e seu Futuro: sexo, escolha e consciência”, uma iniciativa da Aliança pela Saúde e pelos Direitos Sexuais e Reprodutivos no Brasil, com apoio da Bayer. Adolescentes e adultas têm direito a uma vida sexual saudável e satisfatória - livre de riscos, pressões, preconceitos, culpas, abusos. Lembrei de várias outras frases/ordens/julgamentos que soam familiares a todas nós sobre o direito de definir SE, QUANDO, COMO e COM QUEM queremos transar ou compartilhar intimidade.

“Você não tem idade pra essas coisas!”. Não existe tabela matemática no Excel que aponte, por exemplo, o momento certo pra perder a virgindade. Isso tem mais a ver com química (como seu coração se sente), biologia (como seu corpo reage) e história (o que te levou até ali e quais caminhos você pretende seguir). Pode ser aos 16, aos 40 anos... ou não ser. Pode ser que você se sinta preparada depois de dois anos de namoro e, no meio dos amassos, mude de ideia. Não, ninguém pode te chantagear ou forçar nada. Nem “a cabecinha”.

“Mulher que dá no primeiro encontro não se valoriza!”. Não faz sentido que o valor de alguém seja medido com esse tipo de régua. No mínimo, porque a sexualidade é só uma das nossas muitas facetas. Talvez você se sinta confortável no date e role tudo de uma vez. Se a decisão de expressar seu desejo no seu tempo for nota de corte, bem... valorize a oportunidade de encontrar outra pessoa. E não esquece que empoderamento também é a possibilidade de impor limites, dizer “agora não” e reconhecer violências.

“Ih, se faltar em casa, ele vai procurar na rua!”. Esse clássico da geração das minhas avós aconselha que a namorada/esposa deve sempre ceder às investidas do parceiro e topar suas fantasias pra não dar brechas à infidelidade. Opa, opa, opa. Você não é obrigada a fazer sexo quando ou do jeito que ele quiser - e isso jamais deve ser usado pra te colocar contra a parede e barganhar. Namoro e casamento não são passe-livre para o corpo e os desejos da mulher.

“Relaxa que eu gozo fora!”. Todas nós temos o direito de exigir sexo seguro pra prevenir uma gravidez não planejada e doenças sexualmente transmissíveis, além de escolher como se proteger tanto num lance casual quanto em um relacionamento sério (sim, por mais que você confie). Não dá pra brincar com saúde nem atirar no escuro, amiga! A gente precisa ir atrás de informações claras sobre métodos contraceptivos, tipo as que tão no site ElaDecide.org, e avaliar qual o melhor com ajuda do nosso médico.

“Sexo oral não é sexo!”. “Mulher satisfeita não se masturba!”. “Sexo anal é coisa de vagabunda!”. O prazer feminino independe da penetração (aliás, ela raramente é responsável pelos nossos orgasmos), a masturbação independe da frequência sexual de um casal e nenhuma prática consentida deve ser motivo de vergonha. Explorar o próprio corpo e o de outra pessoa em busca de novas sensações e experiências é uma decisão superválida. Basta ficar atenta pra não se ver física e/ou emocionalmente ferida.

“Sentir tesão por alguém do mesmo sexo não é normal”. Não escolhemos por quem nos sentimos atraídos, pra onde se dirige o nosso desejo e/ou nosso afeto. Existem diferentes expressões e orientações sexuais - a heterossexualidade não pode ser considerada a “correta” nem as demais, patológicas. Você tem liberdade pra escolher, sem discriminação, com quem quer transar e compartilhar sua intimidade. No caso, é com outra(s) mulher(es)? Ótimo! Vai lá ser feliz dando tchauzinho de Miss.

Nathalia Ziemkiewicz