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Redes sociais: feitas para viciar

Engenheiros e profissionais do Vale do Silício admitem que as empresas trabalham para tornar usuários cada vez mais dependentes

06.11.2018 - Por Bayer Jovens

Quantas vezes você acessou o Facebook para dar uma olhadinha rápida e, de repente, percebeu que passou tempo demais na rede social? E, mesmo já tendo navegado por muitos e muitos posts, voltou várias vezes para ver as “novidades”? Se você se comporta assim, saiba que está deixando muita gente feliz. Não necessariamente pessoas do seu círculo pessoal, mas anunciantes e empresas que querem manter você – e o maior número possível de pessoas – cada vez mais dependente das redes sociais.

Em uma série de entrevistas para o programa Panorama – Smartphones: The Dark Side, da rede britânica BBC, engenheiros, desenvolvedores e outros profissionais do Vale do Silício contaram que tem muita gente trabalhando duro e conscientemente para tornar as redes sociais cada vez mais viciantes. O motivo é muito simples, e quem explica é Sandy Parakilas, um engenheiro que trabalhou no Facebook, em matéria da BBC: “Há um modelo de negócios desenhado para tirar o máximo possível de tempo da sua vida e então vender essa atenção aos anunciantes”.

O engenheiro sentiu na pele o efeito viciante da rede social. Ele contou que ao tentar deixar de usar o serviço, quando saiu da empresa em 2012, sentia-se como alguém que estivesse largando o cigarro. Também admitiu que as pessoas com quem trabalhava “tinham consciência de que o produto era viciante e formador de hábitos”. Essa visão é compartilhada pelo ex-presidente do Facebook, Sean Parker, que já comentou que a rede “explora vulnerabilidades da psicologia humana”.

Aza Raskin, engenheiro e ex-funcionário da Mozilla e da Jawbone, vai mais longe. O profissional, que em 2006 ajudou a criar o scroll infinito – um dos recursos mais importantes dos aplicativos –, afirmou que atrás de cada tela de smartphone há em média cerca de mil engenheiros que trabalharam para tentar torná-la o mais viciante possível. “É como se eles estivessem pegando cocaína comportamental e apenas borrifando por toda a sua interface, e é isso que fica fazendo você voltar e voltar e voltar”.

De acordo com Raskin, fazer testes comportamentais para definir a melhor forma de prender a atenção dos usuários é prática comum nas companhias de tecnologia. Até o aparentemente inofensivo botão “curtir” teve a forma e a cor planejadas para cumprir esse objetivo. Quanto à sua invenção, que torna as timelines infinitas e estende o tempo gasto no que seria uma rápida consulta às redes sociais, Raskin disse que, ao criar o scroll infinito, não tinha consciência de quão viciante o recurso se tornaria, mas mesmo assim se sente culpado por isso.

Consultadas a respeito dos efeitos de dependência que produzem em seus usuários, Twitter e Snapchat negaram agir dessa forma. Já o Facebook afirmou, por meio de Ime Archibong, vice-presidente responsável pelas parcerias de produtos, que a empresa “trabalha com parceiros externos que analisam os hábitos e comportamentos dos usuários, dentro e fora da plataforma, para tentar entender se há elementos que acreditam fazer mal às pessoas”.

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