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Que tal um café?

Brasil é o maior produtor e exportador mundial desse grão cada vez mais valorizado e “gourmetizado”, quase como o vinho

24.05.2019 - Por Bayer Jovens

Depois da água, o café é, de longe, a bebida mais consumida do mundo. E o Brasil, com boa vantagem, é o maior produtor e exportador mundial, além de ser o segundo maior consumidor do grão. Essa combinação deixa o país em uma situação muito especial em relação a essa delícia que faz parte da vida da maioria das pessoas, do café da manhã até o complemento das refeições. O grão originário da Etiópia, saboroso e estimulante, é tão apreciado que possui duas datas comemorativas: o Dia Internacional do Café, 14 de abril, e o Dia Nacional do Café, celebrado desde 2005, em 24 de maio.

Não faltam motivos para a dupla homenagem. Calcula-se que 2,25 bilhões de xícaras de café sejam consumidas diariamente no planeta. Desse total, quase um terço dos grãos é colhido no Brasil, que em 2018 registrou a maior safra de sua história, de 61,7 milhões de sacas de 60 quilos beneficiadas, das quais exportou 33,15 milhões. Foi um resultado histórico, que superou em cerca de 10 milhões de sacas o recorde anterior, de 2016, segundo dados do Ministério da Agricultura.

Além da quantidade, o Brasil registrou outro recorde: em novembro de 2018, um lote de um café especial produzido na Fazenda Primavera, no município mineiro de Angelândia, foi negociado por 18.916 dólares a saca, ou 315 dólares o quilo – perto de R$ 1.250, o valor mais alto até então registrado no mundo, de acordo com a Forbes. O lance foi dado por um comprador norte-americano no leilão virtual do concurso Cup of Excellence, o principal do mundo em qualidade.

Parece extravagância pagar R$ 1.250 por um produto que, nos supermercados, não custa mais do que R$ 20. O valor, no entanto, é um claro sinal de como a avaliação do café e o perfil de consumo mudaram nos últimos anos, resultado do aperfeiçoamento das técnicas de seleção de mudas, cultivo, colheita, torrefação, moagem e processamento. O grau de sofisticação do café já se torna semelhante ao do vinho, na medida em que se começa a adotar o conceito de terroir, ou seja, a procedência do grão e a influência da localização do cafezal, do solo e do clima.

Também mudou o modo de preparar a bebida, o que deu origem até mesmo a uma nova profissão: o barista, profissional especializado em café, capaz de criar receitas surpreendentes em uma pequena xícara. Nos artigos em revistas e jornais também começaram a aparecer expressões antes reservadas ao vinho e a bebidas destiladas, mas agora também aplicáveis ao café – como blends, diferenças sensoriais, “leve sabor caramelado” e “certo retrogosto de castanha”, por exemplo.

Esse processo de “gourmetização” do café revela, sobretudo, uma mudança nos hábitos do consumidor, que não se importa em pagar mais por um produto de boa procedência, que dá importância à qualidade, à sustentabilidade e à preservação dos recursos naturais. A partir daí, surge a preferência pelo specialty coffees, os cafés especiais, uma tendência que, ao que tudo indica, não é simples modismo, num processo semelhante ao que ocorreu com as cápsulas, que surgiram em 1986 e conquistaram o mundo com diferentes tipos de intensidade e sabor.

Os produtores brasileiros perceberam rapidamente esse movimento. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), em 2018 foram produzidos no país aproximadamente 10 milhões de sacas de cafés especiais, ou seja, mais de 16% do total da safra do ano e quase o dobro do resultado de 2015. Segundo a Abic, o Brasil já é o maior fornecedor mundial de cafés especiais, e a demanda externa não para de crescer, principalmente nos Estados Unidos, no Japão e em países europeus como Itália, Espanha, Bélgica e Reino Unido.

O desafio dos cafeicultores é manter um padrão de qualidade, independentemente das condições climáticas, das pragas e doenças e de outras surpresas que podem surgir ao longo do processo de produção. Para ganhar espaço no mercado de cafés de alto valor, as variedades especiais devem ter sempre as mesmas características, para provar que cumprem o que é prometido ao consumidor.

O engenheiro agrônomo Maurício Antônio Lopes, ex-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em artigo publicado na revista Globo Rural, aborda esse aspecto e cita estudos do pesquisador australiano Philip Marriot, que usa técnicas sofisticadas de cromatografia para caracterizar as centenas de componentes que afetam a qualidade da bebida, a fim de definir padrões. “Segundo Marriot, com a ‘gourmetização’ e a valorização de aromas e sabores cada vez mais sofisticados, em futuro próximo, o café terá de ser tratado como, por exemplo, o perfume Chanel nº 5, que, se não oferecesse qualidade e padrão constantes, ninguém o compraria”, diz Lopes.