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Sustentabilidade

Programados para ter vida curta

Empresas reduzem a vida útil de celulares para “estimular” o consumidor a comprar os novos modelos, e essa prática tem nome: obsolescência programada.

07.05.2019 - Por Bayer Jovens

Depois de dois anos e algumas atualizações obrigatórias, o celular de repente fica lento, difícil de utilizar, e alguns aplicativos simplesmente param de funcionar. E fica a dúvida: com tanta tecnologia, tanta pesquisa e tantos avanços, por que alguns smartphones – e outros produtos como eletrodomésticos, por exemplo – parecem durar tão pouco hoje em dia? A resposta para isso está na obsolescência programada, prática utilizada por algumas empresas fabricantes para encurtar, de propósito, a vida útil de seus produtos, a fim de incentivar as pessoas a consumirem mais e mais.

As empresas negam – e é mesmo difícil provar tal prática –, mas no fim de 2018 a Autoridade Garantidora da Concorrência e do Mercado da Itália (AGCM) multou a Apple em 10 milhões de euros (cerca de R$ 43 milhões) e a Samsung em 5 milhões de euros (R$ 21,5 milhões) por adotarem “práticas comerciais desleais que causaram avarias graves [nos dispositivos] e reduziram significativamente seu funcionamento, acelerando assim a sua substituição por produtos mais novos”, como informou a versão brasileira do jornal espanhol El País.

Além de causar prejuízo financeiro para o consumidor – que nem sempre pode se dar o luxo de trocar um aparelho relativamente novo por um modelo mais “moderno” –, a obsolescência programada compromete a saúde pública e o meio ambiente, ao exigir o uso crescente de recursos naturais finitos, liberar gases do efeito estufa durante o processo de produção de novos equipamentos e gerar grande quantidade de resíduos.

Segundo uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a indústria de tecnologia produz, sozinha, 41 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos por ano. E onde vai parar todo esse lixo? Grande parte em Agbogbloshie, um dos maiores lixões tecnológicos do mundo, situado em Acra, a capital de Gana, na África. Mas esses depósitos existem também na Índia e no Paquistão, que não têm infraestrutura para tratar desse tipo de material, altamente tóxico, e em vários outros países “em desenvolvimento”.

A saída, apontam os especialistas, é forçar os fabricantes a produzir equipamentos melhores, que durem mais, sejam fáceis de reparar e, sobretudo, não sejam desnecessariamente considerados obsoletos. Se essa prática não existisse, “um telefone celular teria uma vida útil de 12 a 15 anos”, afirmou Benito Muros, presidente da Fundação Energia e Inovação Sustentável Sem Obsolescência Programada (Feniss), em entrevista ao El País.

Na Europa, existe uma crescente conscientização a respeito do assunto. Em julho de 2018, o Parlamento Europeu aprovou (por 622 votos a favor e 32 contra) o Relatório sobre Produtos com Vida Útil Mais Longa: Vantagens para os Consumidores e as Empresas, em que solicita que a Comissão Europeia adote medidas contra a obsolescência programada.

Nos Estados Unidos, pelo menos 18 estados trabalham para aprovar leis que inibam a prática recorrente de algumas empresas de não fornecer peças para reposição ou dificultar e encarecer o conserto do equipamento a ponto de ser mais vantajoso comprar um novo do que reparar. No Brasil, ainda não há propostas concretas para facilitar a vida de quem prefere consertar seus equipamentos a comprar um novo.

Nas redes autorizadas, muitas vezes os reparos são caros e demorados. Em lojas de conserto, os técnicos, ocasionalmente, não têm acesso a peças originais e são legalmente proibidos de mexer em determinados aparelhos. De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, produtos que saem de linha devem manter peças de reposição no mercado por um prazo razoável. Porém, o órgão não especifica a duração desse prazo. Na Câmara dos Deputados, há um projeto de lei (PL 7875/2017) que pretende proibir a obsolescência programada, mas ainda aguarda um lugar na pauta de votação.

Porém, se ainda não é possível evitar a obsolescência programada, veja como se proteger.

  • Você precisa mesmo de um novo aparelho? – Ou será que a vontade é apenas psicológica, a necessidade de acompanhar “os outros”? Essa é a grande pergunta. Caso seu celular – ou qualquer outro aparelho eletrônico – esteja funcionando bem, verifique a real necessidade de trocá-lo. Às vezes uma pequena melhoria na câmera ou uma tela com melhor resolução não justifica o preço – no bolso e para o meio ambiente – que você terá de pagar.
  • Cuide bem dos seus produtos – Faça as atualizações de segurança, pequenos consertos e mantenha-os limpos. E, quando decidir trocá-los, dê um destino sustentável aos seus equipamentos: doe ou venda para quem ainda poderá fazer uso deles por mais algum tempo.
  • Substitua peças e acessórios somente quando necessário – Se o aparelho estiver funcionando direitinho, as peças não precisam ser trocadas, mesmo quando a empresa fabricante envie algum tipo de notificação para substituição de componentes em intervalos predeterminados.
  • Use refis – Em vez de cartuchos novos de impressora, por exemplo, opte pelos refis que o mercado oferece. Além de mais baratos, consomem menos recursos em sua produção.
Bayer Jovens