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13.07.2017 por Bayer Jovens

Poder feminino

Acampamentos musicais estimulam as mulheres a ter uma vida com mais atitude, coragem e autoconfiança

13 de julho é o Dia Mundial do Rock – curiosamente, comemorado apenas no Brasil, para lembrar a data em que se realizaram os dois históricos megaconcertos Live Aid, que reuniu estrelas do primeiro time em Londres e na Filadélfia, em 1985, e chamaram a atenção do mundo para a fome na Etiópia. Desde então, muita pedra rolou na corrente do gênero musical que moldou várias gerações, o rock’n’roll.

Uma coisa, porém, pouco mudou: continua faltando mulher nos palcos do rock, um universo basicamente masculino. Mas essa situação tem tudo para ser diferente, pelo menos no que depender de Flavia Biggs, socióloga formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), guitarrista, educadora e a pessoa por trás da vinda ao Brasil dos acampamentos norte-americanos Girls Rock Camp (para garotas de 7 a 17 anos) e Ladies Rock Camp Brasil (para mulheres com mais de 21 anos). A proposta dos acampamentos, Flavia explica, é o empoderamento feminino por meio da música. “A música é nossa ferramenta, o pano de fundo para trabalhar a autoestima e a solidariedade entre mulheres e mostrar que podemos contar umas com as outras, que vivemos experiências muitas vezes semelhantes”.

 Crédito: Divulgação

Diretora de projetos de desenvolvimento do Girls Rock Camp Brasil, Flavia é militante feminista e acredita em seu poder de transformação social não só para mulheres, mas para toda a sociedade. E é por meio da música que a guitarrista da banda The Biggs quer aumentar o poder feminino.

Durante uma semana por ano (em janeiro no Girls, em julho no Ladies), elas aprendem a tocar um instrumento, montam uma banda, compõem uma música (letra e melodia) e fazem um show ao vivo. Também participam de oficinas de fanzine, composição musical, defesa pessoal e afro-brasilidade, além de outras atividades. Ao longo desse processo, elas também improvisam, enfrentam medos e dúvidas, e se emocionam. Mas também se divertem um bocado e descobrem ser muito mais capazes do que imaginavam.

Por trás de toda a operação há um time de voluntárias vindas de vários estados do Brasil e da Argentina. A maioria está envolvida com música, movimentos sociais e educação. “São pessoas que possuem sensibilidade para esse tipo de atividade, que acreditam na transformação social e na importância da luta das mulheres”, diz Flavia.

Confira a seguir, a entrevista exclusiva de Flavia a Bayer Jovens. E se as garotas tiverem vontade de descobrir seu lado roqueiro, basta conferir no fim deste texto como participar dos acampamentos.

Carl SaganCrédito: Divulgação

Bayer Jovens – Socióloga, educadora e guitarrista em uma banda de rock: quais são os pontos de conexão entre tantas atividades?

Flavia Biggs – Todos. Eu fui estudar ciências sociais e a luta dos direitos das mulheres depois de conhecer o movimento punk e perceber que, apesar da proposta libertária, o espaço da mulher não era valorizado. Acabava reproduzindo preconceitos da sociedade. Consegui juntar a música com a militância, duas coisas que me apaixonam.

E a conexão entre o movimento feminista e o rock?
Infelizmente, vivemos em uma sociedade ainda muito machista e, mesmo em grupos que acreditamos ser da contracultura, como o rock e o punk, há bastante preconceito. As mulheres que estão envolvidas com o rock sentem isso. E queremos quebrar esses padrões e preconceitos. Quantas vezes já ouvi as pessoas falarem: “Nossa, você toca tão bem, igual homem”. Como se eles fossem a referência do que é tocar bem. É isso que a gente tenta romper. Nós, mulheres, tocamos bem como mulheres.

Você trouxe o Ladies Rock Camp para o Brasil em 2014, um ano depois do Girls Rock Camp, numa época em que ainda não se falava muito de empoderamento feminino. Como foi a adesão naquela época?
Assim que começamos a fazer o Girls Rock Camp em Sorocaba, o primeiro da América Latina, as mães das meninas que participavam sempre falavam: “Quem me dera tivesse um desse quando eu era novinha”. Elas perceberam a mudança que aconteceu em suas filhas, como foi bom para as garotas viver essa emoção, e queriam ter tido isso também. O empoderamento é um processo que se desenvolve ao longo da vida. Essa experiência já acontecia nos Estados Unidos. Foi aí que eu decidi criar uma edição para as mulheres adultas também. Fizemos o primeiro e foi incrível, com uma adesão muito legal, especialmente das mães das garotas do Girls. Na primeira edição tivemos 30 mulheres e montamos cinco bandas com seis integrantes. Foi maravilhoso, emocionante. Neste ano, o Ladies acontece na segunda semana de julho e terá 60 participantes.

 Apresentação da banda Liberta Capitu na edição 2016 do Ladies Rock Camp Brasil
Crédito: Divulgação

De 2013 para cá, o que mudou?
O acampamento se firmou e a procura aumentou demais. Na primeira edição do Girls, demoramos cerca de três meses para preencher 60 vagas. Agora, na última edição, em janeiro, preenchemos 90 vagas em três horas. Esses números mostram que a sociedade está reconhecendo a importância do empoderamento feminino. Acredito que as mulheres têm mais consciência da importância da autoestima, de se reconhecerem como um ser que pode transformar, empreender e desenvolver suas potencialidades.

Qual é a diferença de abordagem entre o Girls e o Ladies Rock Camp?
No caso do Ladies, discutimos mais aberta e profundamente as questões do universo feminino, como repressão e tudo o mais. Com as meninas do Girls, a partir de 7 anos, falamos de uma maneira mais suave, por meio das experiências que elas vão tendo ao longo da semana. Aos poucos elas percebem que são fortes e capazes, que podem acreditar nelas mesmas e também nas outras garotas.

E como o rock estimula esse empoderamento?
É na música que está o nosso diferencial. Durante uma semana, elas aprendem a tocar um instrumento, montam uma banda e fazem uma composição autoral. Elas também se socializam e veem que é possível superar o desafio de construir juntas um projeto novo, a partir do zero. É muito empoderador quando elas percebem que montaram uma banda, fizeram uma música e tocaram ao vivo. E tudo isso em apenas cinco dias! Parece que é algo intransponível, difícil, e é esse paralelo que fazemos com a sociedade lá fora.

Carl SaganDepois de cinco dias mergulhadas na música, as garotas da Mama Liberta se apresentam ao vivo no Ladies
Crédito: Divulgação

Em sua opinião, o que tem de mais legal no acampamento?
A rede formada pelas voluntárias, pelos pais e pelas crianças. Pelas pessoas que viveram essa experiência, que acreditam na transformação social a partir do empoderamento de meninas e mulheres. São pessoas que podem colaborar entre si. Eu acredito muito na força da rede, na força da comunidade. As pessoas que se conectam por meio do projeto descobrem que podem contar umas com as outras ao longo da vida, e essa rede as fortalece.

Há planos de levar o acampamento para outras cidades?
Sim, o Girls Rock Camp já chegou a Porto Alegre. No ano que vem vai para Curitiba e, se tudo der certo, para Buenos Aires também.

Serviço
Girls Rock Camp Brasil – Sempre em janeiro
Inscrições em 11 de outubro, no Dia Internacional das Meninas – tem que correr, pois as vagas são preenchidas todas no mesmo dia, em poucas horas
https://www.girlsrockcampbrasil.org/
https://www.facebook.com/girlsrockcampbrasil/

Ladies Rock Camp Brasil – Sempre em julho
Inscrições em 30 de abril, no Dia Nacional das Mulheres – podem surgir vagas após essa data, então vale acompanhar o Facebook do evento
https://www.girlsrockcampbrasil.org/ladies
https://www.facebook.com/ladiesrockcampbrasil/

A inscrição custa R$ 250,00 e toda a renda é revertida para a realização do próprio projeto. O acampamento tem vagas gratuitas (bolsas) para meninas e mulheres.

Veja o vídeo de apresentação do Ladies: