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Onde o Brasil é mais forte

Como o país deixou de ser um importador de alimentos para se tornar uma potência agrícola

09.01.2019 - Por Bayer Jovens

Você certamente sabe que o Brasil é hoje o 2º maior produtor mundial de alimentos e caminha para se tornar o 1º. Mas nem sempre foi assim. Ao contrário, e em uma época não muito distante — até a década de 1970 — nossa agricultura apenas engatinhava, era pouco produtiva e, para se alimentar, os brasileiros dependiam da importação de produtos básicos, embora houvesse um forte crescimento industrial e econômico.

Atualmente, no entanto, o campo responde por boa parte do Produto Interno Bruto nacional, é uma fonte fundamental de emprego e renda, produzindo o suficiente para abastecer 1,5 bilhão de pessoas no mundo, o que equivale a sete vezes a população total do país.

Essa guinada radical do setor agrícola tem mais de uma causa. No entanto, os especialistas concordam que ocorreu, sobretudo, uma combinação de políticas públicas, oferta de crédito subsidiado, avanços nas áreas de pesquisas, incorporação de tecnologia agrícola e determinação dos produtores rurais para uma melhor organização e aperfeiçoamento dos processos produtivos. Essa visão é compartilhada, por exemplo, pelos técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma instituição criada em 1973, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A Embrapa é uma empresa de inovação tecnológica dedicada à pesquisa e à produção de conhecimento e teve papel fundamental na evolução do agronegócio no país, ao ajudar a criar um modelo tipicamente brasileiro, adaptado às nossas características geográficas e climáticas. Hoje, conta com uma equipe de mais de 2.400 pesquisadores, dos quais 84% têm doutorado ou pós-doutorado, que produzem estudos pioneiros e atuam em praticamente todas as áreas da agricultura e da pecuária.

Um dos mais recentes documentos divulgados pela Embrapa, Visão 2030 – O futuro da agricultura brasileira, destaca a importância do agronegócio, que em 2016 respondeu por 23,6% do PIB e por 45% do total das exportações do país e gerou um saldo comercial de 71 bilhões de dólares, num período de crise na economia.

O documento acrescenta: “No mesmo ano, o setor foi responsável por 19 milhões de pessoas ocupadas, o que representou quase metade (9,09 milhões) dos trabalhadores no segmento primário. A agroindústria e serviços empregaram, respectivamente, 4,12 milhões e 5,67 milhões de pessoas, enquanto 227,9 mil pessoas estavam ocupadas no segmento de insumos do agronegócio”.

Importações, exportações e saldo da balança comercial do agronegócio brasileiro de 1989 a 2017. Fonte: Agrostat (2017)/Reprodução EmbrapaImportações, exportações e saldo da balança comercial do agronegócio brasileiro de 1989 a 2017. Fonte: Agrostat (2017)/Reprodução Embrapa

No gráfico acima, percebe-se claramente a evolução do setor e, em especial, o crescimento das exportações, que produziram um saldo de 81,7 bilhões de dólares em 2017, o que significa uma expansão de quase dez vezes em 18 anos. Boa parte desse avanço se deve à tecnologia que, em quatro décadas, entre 1975 e 2015, foi responsável por 59% do crescimento do valor bruto da produção – bem mais do que o crescimento proporcionado pela expansão da terra (25%) e pelo aumento da mão de obra empregada (16%), de acordo com cálculo da Embrapa.

Quando se fala em tecnologia agrícola, logo se pensa em máquinas colheitadeiras gigantescas operadas por computador, tratores de última geração, sistemas de irrigação mais eficientes e utilização de recursos de informática e de comunicação para gerenciar as fazendas e controlar todas as etapas da produção. Essa imagem é real e se soma a muitas outras novidades, como o uso de drones e de aplicativos de celulares, mas também a pesquisa em laboratórios tem uma participação significativa no crescimento da produtividade da agricultura brasileira.

Neste exato momento, há uma legião de especialistas anônimos em busca de processos capazes de gerar plantas mais resistentes a pragas e a eventos extremos da natureza, como seca e inundações. Esses profissionais trabalham para encontrar maneiras viáveis de aumentar a produção de alimentos de maneira sustentável e esse é um dos motivos pelos quais a produção de grãos no Brasil cresceu mais de cinco vezes entre 1977 e 2017, saltando de 47 milhões de toneladas para 237 milhões. No mesmo período, a área ocupada pelas plantações de grãos como soja, milho, feijão, arroz e trigo se manteve praticamente estável, o que é explicado pelo aumento da produtividade.

Área e produção de grãos de 1977 a 2018. Fonte: Conab (2018)Área e produção de grãos de 1977 a 2018. Fonte: Conab (2018)

A soma de políticas públicas, empreendedorismo agrícola, tecnologia e pesquisa, portanto, foi responsável pela maior parcela da revolução que, em pouco tempo, transformou o Brasil em uma potência agrícola. O interior do país, que até a década de 1970 era caracterizado pela falta de recursos, hoje abriga vários polos de desenvolvimento social e econômico, em cidades que crescem mais do que as capitais e têm mais qualidade de vida.

Esse fenômeno ocorreu em todas as regiões do país, cada uma com sua característica, com ênfase nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, onde se localizam os grandes complexos agrícolas de produção de soja, cana-de-açúcar e carne, principalmente.

De maneira geral, a região Sudeste concentra as áreas produtivas que mais utilizam recursos de alta tecnologia e atendem à demanda das indústrias, com culturas como café, frutas e cana. Nos estados do sul, destaca-se a produção de soja, milho, cana, algodão e de carne de porco e aves, enquanto no Nordeste há um número maior de plantações de frutas como melão, manga, abacaxi e uva.

Se hoje a posição do Brasil no mapa mundial de produção de alimentos já é privilegiada, no futuro a participação do país deverá ser ainda mais importante, por vários motivos. Para começar, as condições climáticas permitem a intensificação da agricultura, diferentemente da quase totalidade das nações desenvolvidas, o que permite a colheita de duas safras por ano de várias culturas.

A verdade é que o mundo conta com o Brasil para conseguir alimentar uma população que não para de crescer e deverá chegar a 10 bilhões de pessoas no fim da década de 2050. No futuro mais próximo, até 2030, estima-se que haverá um aumento de 50% no consumo de água, 40% no de energia e 35% no de alimentos, provocado pelo crescimento populacional e pelo aumento da expectativa de vida e do poder de compra das pessoas.

O maior de todos os desafios é atender a expansão dessa demanda de forma sustentável em um planeta que sofre as consequências das mudanças climáticas, que atingem diretamente a agricultura, a pecuária, a biodiversidade e os ecossistemas. Para isso, o protagonismo brasileiro é fundamental. O país produz mais de 400 produtos de origem vegetal e animal, exportados para mais de 150 países, e na última safra bateu o recorde histórico de produção de grãos, com 240 milhões de toneladas.