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Inovação no campo

O paraíso da tecnologia agrícola

Com área menor do que Minas Gerais e seis vezes mais habitantes, o Japão recorre à alta tecnologia para produzir o máximo possível de alimentos

31.10.2019 - Por Bayer Jovens

Terceira maior economia do mundo, o Japão ostenta uma série de indicadores positivos, mas lamenta a falta de área. Para uma população superior a 126 milhões de habitantes, possui apenas 388 mil km2 de território, espalhados por mais de 6 mil ilhas – para efeito de comparação, o estado de Minas Gerais tem 586,5 mil km2 de área e 20 milhões de habitantes.

Paraíso da agricultura tecnologica

O resultado é que os japoneses contam com pouca terra agriculturável, insuficiente para alimentar a todos, e o arroz é o único cultivo que supre a demanda interna. Para complicar ainda mais, grande parte das pessoas que viviam no campo acabou migrando para as cidades depois da Segunda Guerra Mundial, e assim a agricultura japonesa passou a enfrentar um desafio duplo: a escassez de áreas de plantio e de mão de obra rural.

Para reduzir o problema e buscar novas soluções, o Japão recorreu à imaginação e à alta tecnologia agrícola, em um nível que se tornou referência e inspiração para outros países. A receita vai desde o desenvolvimento de máquinas robotizadas que, sozinhas, realizam várias operações de plantio e colheita até a criação de fazendas urbanas. Entre os recursos mais inovadores estão as pesquisas em laboratórios, o uso de polímeros, a inteligência artificial e a internet das coisas (IoT), que estão transformando o campo em verdadeiros centros de tecnologia aplicada.

Um bom exemplo da criatividade japonesa é a empresa Mebiol, criada por Yuichi Mori, que patenteou em mais de 100 países, entre os quais o Brasil, uma técnica revolucionária de cultivo com base em uma película de polímero à base de hidrogel, que dispensa terra. De acordo com reportagem da BBC, a técnica já é praticada no deserto dos Emirados Árabes e em várias regiões do Japão e utilizada também na recuperação de áreas agrícolas contaminadas pelo tsunami que atingiu o país em 2011.

Mori adaptou um sistema conhecido na área médica para filtrar o sangue durante a diálise renal e criou um ambiente em que as frutas e verduras crescem sobre a película e consomem apenas 10% do volume de água que seria necessário no cultivo convencional. Além disso, o polímero bloqueia a entrada de vírus e bactérias, dispensando o uso de defensivos.

Para compensar a falta de mão de obra, já que apenas 7% da população economicamente ativa do país está empregada no campo, o governo japonês oferece subsídios para o desenvolvimento de robôs agrícolas, como o equipamento construído pela empresa Yanmar, em parceria com a Universidade de Hokkaido, que possui um sensor integrado que identifica obstáculos e impede colisões. A Nissan também lançou um trator robô movido a energia solar, com GPS e conexão wifi, que retira as impurezas da água que irriga as plantações de arroz e evita o crescimento de ervas daninhas.

Também chamam atenção as tecnologias relacionadas às culturas hidropônicas, que dispensam o uso de terra para a produção de frutas e hortaliças, com sensores que controlam a luz artificial, os nutrientes e a temperatura, a fim de criar o ambiente ideal para que as plantas cresçam rapidamente, com quase nenhuma perda, durante o ano inteiro e em qualquer clima. Segundo a BBC, o mercado da hidroponia já movimenta mais de 1,5 bilhão de dólares em negócios e deverá quadruplicar até 2023.

Técnicas como essa sustentam também o crescimento das fazendas urbanas verticais, que estão se tornando cada vez mais comuns no Japão. O país já abriga quase 200 dessas instalações, algumas das quais criadas com subsídios do governo, em parceria com universidades e institutos de pesquisa, e com pioneirismo e criatividade se torna um modelo para o mundo, no desafio de aumentar a produtividade agrícola e reduzir o impacto ambiental.

O melhor de tudo é que o governo japonês se dispõe a transferir essa tecnologia agrícola e, em 2014, instituiu a Estratégia Global da Cadeia de Valor Alimentar, para aplicação em países em desenvolvimento. Na África, o Japão já investiu na formação de técnicos agrícolas e na disseminação dos seus sistemas de cultivo de arroz. No Brasil, entre várias outras parcerias importantes, foi assinado em 2016 um acordo de cooperação e investimento em áreas rurais nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, com foco na agricultura de precisão.