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Ciência & Inovação

Mente que nem sente

Estudos indicam que as pessoas mentem frequentemente e não percebem a quantidade de lorotas que contam em uma simples conversa

28.11.2017 - Por Bayer Jovens

“Essa roupa ficou ótima em você!”. “Cheguei atrasado, porque o trânsito estava infernal hoje”. “A bateria do meu celular acabou”. “Está tudo bem”. Quem nunca mentiu, não é mesmo? Mas já reparou como a mentira, muitas vezes, acontece tão naturalmente? E será que é possível passar um dia inteiro sem contar uma mentirinha? De acordo com uma pesquisa da Universidade de Massachusetts, conduzida pelo psicólogo Robert Feldman, o cenário é ainda pior: 60% das pessoas não conseguem manter uma conversa de 10 minutos sem soltar uma mentira.

imagem mente que nem sente

Você deve estar pensando que faz parte do grupo dos 40%, não é mesmo? Porém isso foi o que os mentirosos identificados pelo estudo também pensaram ao fim do teste filmado, feito com um grupo de 242 pessoas. Quando os participantes viram as gravações, ficaram chocados com tantas lorotas.

Robert Feldman verificou pelos resultados que os homens mentem tanto quanto as mulheres, porém com motivos diferentes. Enquanto a mulher normalmente mente para a outra pessoa se sentir melhor, o homem mente, na maioria das vezes, para parecer melhor para os outros.

“É muito fácil mentir. Nós ensinamos às crianças que devemos ser honestos, mas também dizemos que é educado fingir que gostou de um presente de aniversário que ganhou. As crianças recebem um grande mix de mensagens sobre os aspectos práticos da mentira, o que tem um impacto em como elas se comportam como adultos”, explica Feldman em artigo publicado sobre a pesquisa.

Resultados de outro estudo são indicados pelo livro “The Day America Told The Truth”, do cientista Peter Kim e do escritor James Patterson, dos Estados Unidos. Quando se trata de ser enganado, os pais são os que saem na pior: a maioria das pessoas mentem para eles regularmente (86%), seguido de para amigos (75%), irmãos (73%) e cônjuges (69%). Curiosamente, nós mentimos principalmente sobre coisas do cotidiano, sem importância, como ter assistido ao filme “O Poderoso Chefão”, apenas para não passar vergonha em rodas de conversa.

O problema acontece quando a mentira está relacionada a momentos considerados decisivos para a vida das pessoas, como em currículos e entrevistas de emprego. Segundo a Pesquisa dos Profissionais Brasileiros da Catho, 92,2% dos recrutadores assumem que já encontraram mentiras contadas por candidatos em algum momento na sua carreira.

Mas por que será que todos mentem? A Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional esclarece que a mentira é um comportamento aprendido por repetição ou por interpretação: se a pessoa cresceu em um ambiente cercado de mentiras, por exemplo, é muito provável que repita este comportamento na vida adulta. Além disso, crianças que aprendem a tirar vantagens de pequenas mentiras tendem a se tornar adultos que acreditam ser necessário mentir para obter benefícios.

A psicologia também explica que as pessoas mentem como uma forma de proteção, quando estamos em alguma situação desconfortável ou até de ameaça, de bronca, castigo ou de penalidade dos pais para o filho, por exemplo.

Bom, a verdade é que criança, homem, mulher, namorado, prima e papagaio, todos mentem, mas que fique então só naquelas mentirinhas do dia a dia, que nada influenciam em nossas vidas, não é mesmo? Só é preciso ter cuidado para não se tornar um hábito.

Gisela Blanco é jornalista e mestre em Business Innovation pela Birkbeck, University of London. Há 10 anos escreve sobre ciências, tecnologia e inovação. Colaborou como repórter e editora para algumas das principais revistas do país, como Superinteressante, Veja, Exame e CLAUDIA. Para falar com ela, escreva para giblanco@gmail.com. A opinião expressa nos artigos é de responsabilidade dos colunistas convidados e não correspondem à opinião da Bayer como empresa.

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