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Medicamento pode revolucionar tratamento de úlceras crônicas

Pesquisadores da Unesp desenvolvem medicamento que combina veneno de cascavel e sangue de búfalo para tratar úlceras crônicas

05.02.2019 - Por Bayer Jovens

Veneno de cascavel e sangue de búfalo: por incrível que pareça, essa estranha combinação está presente na fórmula de um medicamento que pode revolucionar o tratamento de úlceras crônicas, uma patologia de difícil abordagem terapêutica, que pode provocar dores insuportáveis quando ocorre nas pernas e nos pés. O remédio se chama selante de fibrina, um biocurativo com tecnologia 100% brasileira, desenvolvido no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Unversidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, no interior de São Paulo.

 Retirada do veneno de uma cascavel em laboratório do Cevap/Reprodução Cevap-Unesp

O selante de fibrina está pronto para chegar ao mercado, depois de quase 30 anos de pesquisas, e foi criado a partir de uma enzima extraída do veneno da cascavel e do fibrogênio do sangue de búfalo. O medicamento foi testado em animais e em dezenas de pacientes, com ótimos resultados, como explica Rui Seabra Júnior, diretor-geral do Cevap: “A eficácia do produto já está comprovada e todos os testes que fizemos mostraram bastante eficácia. Estamos apenas esperando o registro para que possa ser comercializado e usado em grande escala, inclusive em pacientes do Sistema Único de Saúde”.

Segundo o pesquisador, o selante age como um potente agente cicatrizante, uma espécie de adesivo cirúrgico biocurativo que simula o princípio natural da coagulação do sangue. Com essas características, o medicamento pode ser utilizado em colagem de pele e de nervos e em cirurgias de gengiva. Por ser biológico, o selante não causa rejeição.

“Depois do registro do produto na Agência Nacional de Vigilância (Anvisa) e da validação de todos os métodos de produção, o legado desse projeto à universidade será enorme em termos de avanço biotecnológico. O importante é que conseguimos transpor a distância existente entre a pesquisa fundamental e a aplicada, com a possibilidade de devolver à população parte dos recursos investidos na universidade pública, na forma de um produto que ajudará a melhorar a qualidade de vida das pessoas”, afirmou Rui Seabra em entrevista publicada no site do Cevap.

De acordo com o pesquisador, já existem no mercado outros selantes eficientes, mas o fibrogênio de sua composição é derivado do sangue humano, que pode ser contaminado por vírus ou doenças infecciosas. O fibrogênio do sangue do búfalo, por outro lado, é bem mais seguro e pode ser coletado sem causar danos ao animal. “Além disso, o sangue do búfalo possui mais fibrogênio na comparação com outros animais, e isso é decisivo”, acrescenta Benedito Barraviera, professor da Faculdade de Medicina da Unesp, que participa do projeto desde seu início, em 1989.

Rui Seabra lembra ainda que o projeto contou com a participação ativa de médicos, veterinários, biólogos, bioquímicos e outros especialistas do Cevap: “Foi um trabalho pioneiro e agregador. Desconheço experiência semelhante no Brasil”, disse.

Se você quiser saber mais a respeito do selante de fibrina, da pesquisa desenvolvida pelo Cevap e dos problemas provocados pelas úlceras crônicas, assista a esta matéria, produzida pelo programa Globo Rural.

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