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03.07.2017 por Bayer Jovens

Igualdade: por que é tão difícil?

Segunda-feira, 3 de julho, é o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial. Mas, afinal, o brasileiro é ou não preconceituoso?

Há 66 anos, no dia 3 de julho de 1951, o Congresso aprovou a Lei 1.390, que transformou em contravenção penal qualquer ato resultante de preconceito de raça ou de cor. O autor do texto foi Afonso Arinos de Melo Franco, jurista, historiador, professor, ensaísta e político, que, apesar de exercer tantas atividades, tornou-se conhecido principalmente por causa da lei que levou o seu nome. Porém, quando Afonso Arinos morreu, em 1990, aos 84 anos, nem uma única prisão havia sido registrada no país com base na lei que criou.

Isso significa que não existe preconceito racial no Brasil ou a lei deixou de ser aplicada simplesmente por que a justiça brasileira não assume a existência de discriminação? Essa e outras dúvidas vêm à tona neste 3 de julho, Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial, que se soma ao Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, em 21 de março. A grande dúvida é saber se o brasileiro é ou não é preconceituoso – um assunto sério, que merece reflexão.

Para abordar essas questões, Bayer Jovens entrevistou Jorgete Lemos, militante pela igualdade de direitos humanos, graduada em serviço social, diretora de Diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil) e diretora executiva da Jorgete Lemos Pesquisas e Serviços de Consultoria, especializada em gestão de pessoas. Entre outros temas, Jorgete dá um bonito recado aos jovens brasileiros negros: “Não usem a pele como uma veste de luto, dor e sofrimento. Usem a pele para vestirem-se para a festa do viver, agindo como seres humanos, cidadãos plenos de direitos e deveres, mas nunca esquecendo que outros negros podem não ter as mesmas oportunidades”. Confira a entrevista.

Bayer Jovens – Existem pelo menos dois dias dedicados ao combate à discriminação racial, o 3 de julho e o 21 de março. Por que ainda é necessário que existam tais datas?
Jorgete Lemos – No Brasil, porque os negros são 55% da população e protagonistas quando os dados estatísticos se referem à miséria, pobreza, violência, genocídio e desemprego – dos 12,3 milhões de brasileiros desempregados, 63,7% são negros. Porque ainda estamos em um círculo vicioso: para as classes sociais mais pobres, sobram escolaridade de qualidade inferior, trabalho com baixa remuneração, dificuldade de aprimoramento educacional, marginalização e submissão.

Quão preconceituoso o Brasil ainda é?
O Brasil não quer se dar a oportunidade de saber que é preconceituoso. Com isso, nega aos brasileiros a oportunidade de conhecerem seus vieses inconscientes, engessando-os e mantendo o status quo. Essa negação é resultado, entre outros fatores, do desconhecimento decorrente de um sistema de ensino que se nega a ensinar a verdadeira história do país, é míope com relação à geografia e nega a diáspora negra decorrente da imigração africana forçada pela escravidão.

Há poucos dias, Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, em entrevista à Folha de S.Paulo, fez uma pergunta relevante: “Será que o Brasil está preparado para ter um presidente negro?”. O que a senhora acha?
Estar preparado, em minha opinião, seria estar predisposto a conviver harmoniosamente com um ser diferente da maioria economicamente dominante. O país não está preparado. Eu digo que não. O Brasil não está preparado para ter um presidente negro, mas o terá, se a estrutura de comunicação de que dispomos apoiar essa proposta.

Como se manifesta a discriminação racial no universo profissional?
Pelo imobilismo no estilo de gestão, quando os meios para atração, retenção e engajamento colorem os talentos com a cor branca. Basta olhar 360 graus e responder: quantos negros você vê em posições-chave em sua empresa? Basta olhar para baixo na estrutura e responder: quantos negros você viu?

A consciência da igualdade racial vem avançando no Brasil nos últimos anos? O ritmo é satisfatório ou muito lento?
Prefiro falar de “consciência da igualdade de direitos para todos os seres humanos”. Por quê? Tomemos como exemplo uma pessoa do sexo feminino, negra e com deficiência visual. Ela precisará ser respeitada segundo as suas características aparentes ou interiores. Se focarmos na raça, estaremos deixando de lado outras características excluídas pela sociedade. A igualdade pela qual trabalhamos na ABRH Brasil é a igualdade de direitos. Respeito e imparcialidade na aplicação da legislação brasileira, dos pactos globais e das normas de conduta ética nas empresas. Somos todos diferentes, seres únicos e originais, mas iguais em direitos. Talvez avançássemos mais rapidamente se enfatizássemos os valores, as atitudes e os comportamentos, pois a consciência da igualdade racial é impossível.

A senhora dirige uma consultoria em gestão de pessoas. O que diria a um jovem negro que está chegando agora ao mercado de trabalho?
Ame-se. Não fique preso ao retrovisor, olhando para o que não queremos mais que volte. Futurize-se e defina estratégias vitais de oportunidade e avanço, para materializar o que é utópico ainda hoje. Eis o que sugiro aos jovens negros: esqueçam que vocês são negros, não usem a pele como uma veste de luto, dor e sofrimento; usem a pele para vestirem-se para a festa do viver, agindo como seres humanos, cidadãos plenos de direitos e deveres, mas nunca esquecendo que outros negros podem não ter as mesmas oportunidades. Não cultivem o rancor pelo que sofreram e perderam e não vão resgatar: a dignidade de seus ancestrais. Estes ficarão orgulhosos ao perceberem que vocês estão transformando o mundo que eles deixaram.