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Sexualidade
18.05.2016 por Nathalia Ziemkiewicz

Consentimento sexual

Não é sempre não? Até onde você pode ir? O que isso tem a ver com a cultura do estupro? Este é o tema de estreia da colunista Nathalia Ziemkiewicz

Imagine que você (garoto) está andando na rua, vestido de bermuda e regata, cheio de disposição para duas horinhas de academia. No meio do caminho, em frente a um canteiro de obras, um pedreiro te entrega meia dúzia de tijolos. Você olha pra ele sem entender nada: “Tá maluco, cara? Que folga é essa?”. Então o pedreiro responde: “Ué, com uma roupa dessas, você só pode estar querendo carregar peso!”.

A cena parece absurda. Como alguém pode impor algo contra a sua vontade, sem sequer perguntar, apenas porque deduziu isso ou aquilo? É exatamente o que acontece o tempo todo com as mulheres. Por exemplo, se uma garota vai à balada de saia justa e decote, pode apostar que muitos caras se acharão no direito de passar a mão nela sob argumentos do tipo “Ah, tá pedindo sacanagem” ou “Veio assim pra ser chamada de gostosa”.

Não nos ensinam, em casa e na escola, o significado de consentimento sexual: respeitar sempre o desejo e o corpo do outro. E isso gera um baita problema. Para os garotos, que acreditam que avançar os limites é sinal de masculinidade. Para as garotas, que muitas vezes não percebem o abuso – ou acham que faz parte porque “são garotas”. Já reparou quem são as vítimas na esmagadora maioria dos casos? A gente se acostumou às violências cotidianas contra as mulheres, a ponto de nem enxergar que elas existem e de continuar praticando. É a chamada “cultura do estupro”.

Depois de palestrar para turmas do ensino médio de um colégio, uma aluna veio com um triste depoimento. “Eu estava beijando um garoto numa festa, dando uns amassos. Fiquei muito bêbada, mas lembro de ter dito para parar... só que ele não parou e perdi minha virgindade ali”, ela me contou. Não sei se o garoto tem noção da gravidade do que rolou. Desconfio que tenha pensado “esse ‘para’ é charme, ela tá gostando e se fazendo de difícil”. Só que uma pessoa sem total lucidez (e o álcool faz isso), não tem condições de consentir. Então, houve um abuso sexual.

Vídeo usa a metáfora do “oferecer uma xícara de chá a uma visita” para explicar o significado de consentimento.

O jeito mais simples de entender consentimento é gravar a fórmula: “Se não é SIM, é NÃO”. Algumas situações podem te deixar meio confuso. Se ela não disse nada? É NÃO. Se ela disse “talvez”? É NÃO – pelo menos até que ela diga com todas as letras SIM. Se ela disse que “não tem certeza”? É NÃO – espere ela se decidir, sem pressão. Se ela já é sua namorada, mas não está a fim de transar? É NÃO – estar num relacionamento não implica ser obrigada a fazer sexo sempre que o outro quiser. Se ela está de batom vermelho e roupa curta, dançando sensualmente? É NÃO – não pode passar a mão, puxar pelo braço/cabelo/cintura, encurralar com um grupo de amigos, beijar à força, gritar “delícia”.

Várias campanhas ao redor do mundo se engajaram na missão de explicar, didaticamente, o que pode e o que não pode. Uma jovem americana de 20 anos, Sara Li, fundou a organização sem fins lucrativos Project Consent (Projeto do Consentimento) para difundir a ideia de consentimento sexual e combater a cultura do estupro, mostrando como ela é ruim para a sociedade. Em parceria com uma agência canadense, ela divulgou três vídeos de animação usando como personagens uma mão, uma vulva, um pênis, um seio, uma bunda. Além da hashtag #ConsentIsSimple (#ConsentimentoÉSimples).

O Project Consent desenha para explicar: animações curtas e bonitinhas.

A ilustradora Alli Kikham, editora do site Everyday Feminism, também deu sua contribuição. Ela criou uma série de quadrinhos que retratam situações do nosso dia a dia, em uma comparação ótima com os casos em que o consentimento é deixado de lado. Consentimento, galera, não é uma bobagem – é um direito, uma necessidade. Impossível não entender a importância dele depois de Alli desenhar assim...

Consentimento sexual

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