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Como alimentar 10 bilhões de pessoas

Essa será a população do planeta no fim da década de 2050 – e não será nada fácil fornecer comida para tanta gente

06.11.2018 - Por Bayer Jovens

Daqui a aproximadamente 40 anos, no fim da década de 2050, a população mundial deverá atingir a impressionante marca de 10 bilhões de pessoas, o que representa um estonteante acréscimo superior a 30% em relação ao total de hoje. É gente que não acaba mais! De acordo com o site de estatísticas em tempo real Wordometters, hoje somos 7,64 bilhões e, só neste ano, até o fim de julho, nasceram mais de 82 milhões de bebês e houve menos de 34 milhões de mortes. Essa diferença significativa entre nascimentos e mortes explica claramente a tendência de crescimento populacional e faz surgir a grande questão: como alimentar tanta gente nos próximos anos, quando pensamos que já há tanta carência de alimentos em diferentes partes do planeta?

Esse será, provavelmente, o grande desafio a ser enfrentado pela maioria dos países no futuro próximo. E o Brasil terá papel importante nessa tarefa, na condição de segundo produtor mundial de alimentos, com extensas áreas cultiváveis. Naturalmente, surgem diferentes correntes de pensamento, mas a realidade é que o mundo precisa aprender a produzir comida em um ritmo inédito em toda a história da humanidade.

Segundo as projeções da ONU, com base na média de 2,05 filhos por mulher nos próximos anos, em quatro décadas a população mundial estará entre 9,3 bilhões e 10,6 bilhões de pessoas. De acordo com o engenheiro agrônomo e pesquisador Decio Luiz Gazzoni, da Embrapa, além do crescimento populacional, a demanda por alimentos será impulsionada, entre vários outros fatores, também pela expansão da renda per capita prevista para as próximas décadas: com mais dinheiro, as pessoas terão condições de comprar mais comida e escolher os alimentos, com ênfase nas proteínas de origem animal. Ou seja, mais áreas de pastagem, além das que são dedicadas à agricultura – e mais plantações para alimentar os rebanhos.

(Crédito: Decio Luiz Gazzoni/Embrapa)

Além disso, as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento da temperatura da Terra podem reduzir as áreas adequadas ao cultivo de alimentos e aumentar as perdas decorrentes de extremos climáticos como secas e inundações. Estudo da FAO citado por Gazzoni em artigo da revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, prevê que entre 2010 e 2050 será necessário aumentar a produção agrícola em cerca de 70%, muito acima da capacidade atual de todos os países, em torno de apenas 10%, se mantido o ritmo de hoje.

Dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 do IBGE indicam uma evolução significativa na produtividade no Brasil, além de uma expansão das áreas plantadas, que avançou 16,57 milhões de hectares em um ano. Para entender melhor a situação, veja a seguir a entrevista exclusiva concedida pelo pesquisador Decio Luiz Gazzoni ao Bayer Jovens.

Bayer Jovens – Uma das questões centrais da atualidade é o antagonismo entre os defensores da agricultura convencional e os adeptos da agroecologia. O sr. acha que será possível encontrar um meio termo à medida que avançarem as pesquisas na área agrícola ou, em algum momento, os países terão de decidir por um dos dois caminhos?

Décio Gazzoni – Entendo que as duas abordagens não são excludentes. Produtos agrícolas obtidos com técnicas como agricultura orgânica, agroecologia ou similares se caracterizam por dois aspectos importantes. O primeiro é que são mais caros, em parte porque o custo é maior e a produtividade é menor, e em parte porque a “grife” impõe que o preço ao consumidor seja maior, por razões de marketing. Se o preço fosse o mesmo, perderia muito de seu apelo entre os aficionados. O segundo aspecto é que não há como produzir em grande quantidade, da ordem de bilhão de toneladas ou centenas de milhões de hectares. Portanto, teremos uma agricultura chamada convencional, que procura utilizar o máximo de tecnologia para obter altas produtividades e grandes produções, a fim de abastecer a maior parte (acima de 95%) da demanda mundial. E teremos os nichos de consumo, que serão supridos por outras formas de cultivo que sejam do agrado desta classe de consumidores, para os quais o preço do produto não é uma variável que condiciona o consumo, posto que são pessoas de renda elevada, para as quais dobrar ou triplicar o preço dos alimentos não afeta o seu orçamento familiar.

  • O Brasil se encontra em uma posição relativamente favorável, considerando sua localização nas faixas tropical e subtropical do planeta, que permitem a intensificação da agricultura. Se o país se tornar mesmo o maior produtor mundial de alimentos, como se espera, qual será o impacto econômico e social para os brasileiros?
  • Entre os grandes players presentes e futuros do agronegócio global, sem dúvida o Brasil é o que dispõe de mais vantagens comparativas. O fato de localizar-se em áreas subtropicais e tropicais, com possibilidade de múltiplos cultivos ao ano, é uma das vantagens. Entretanto, só isso não é garantia de competitividade. Nós, brasileiros, devemos decidir se queremos ser o grande protagonista da produção mundial de alimentos e outros produtos agrícolas e transformar as vantagens comparativas em efetiva competitividade, em especial equacionando os problemas elencados no conceito de “Custo Brasil”: infraestrutura inadequada (comunicação, energia, armazenagem etc.), logística subdimensionada (rodovias, hidrovias, ferrovias, portos etc.), baixo volume de crédito aos agricultores, juros altos demais, impostos e taxas elevados, energia cara, baixa agregação de valor nas exportações e insegurança jurídica e contratual, entre outros.

    Nos últimos 15 anos, o agronegócio brasileiro tem sido o grande responsável pela renda interna do Brasil, pelos empregos, pela geração de divisas, pelo crescimento do Produto Interno Bruto. Essa é a vocação natural do país. A decisão de nos tornarmos o grande protagonista do agronegócio global significa que poderemos manter a renda interna em crescimento, melhorar a oferta de empregos e interiorizar a economia, mantendo taxas adequadas de crescimento do PIB. Os estudos recentes mostram que o IDH dos municípios brasileiros guarda relação estreita com o agronegócio; ou seja, naqueles municípios em que o agronegócio é pujante, o IDH é elevado, o que significa melhores condições de habitação, saúde e educação.
  • A partir da certeza de que a agricultura terá um papel econômico cada vez mais importante, o que é possível prever em relação às novas oportunidades de trabalho para os jovens no setor? Hoje, vale a pena investir em carreiras relacionadas ao agronegócio?
  • É importante um olhar retrospectivo para entendermos o futuro. Há 50 anos o Brasil era importador de alimentos, e trabalhar na agricultura era sinônimo de pobreza – exceção feita a alguns poucos latifundiários, especialmente nos cultivos de cana-de-açúcar, cacau e café. Desde então ocorreu uma revolução sem par, com o agronegócio se tornando uma atividade moderna, permeada de tecnologia, com inúmeras oportunidades nas funções técnicas, gerenciais e comerciais. Estamos vivenciando uma transição geracional. Os produtores pioneiros, que lideraram a revolução, hoje se aposentaram ou foram transferidos para o conselho de administração de suas empresas. Agora, elas são administradas pelos filhos ou por executivos profissionais, em ambos os casos com formação superior e pós-graduação (via de regra no exterior) em áreas afins, não apenas da agronomia, mas de administração e similares.

    O agronegócio é um dos segmentos da economia onde ocorrem mais avanços tecnológicos e abre inúmeras oportunidades para startups e outras formas de empreendedorismo, além das posições já tradicionais. Obviamente, o futuro do setor depende da decisão dos jovens brasileiros de acreditar que o Brasil será o grande protagonista do agronegócio mundial. Nesse caso, sem dúvida, as profissões ligadas ao agronegócio serão grandes oportunidades no futuro próximo.
  • Atualmente, quais são as áreas de mais interesse dos pesquisadores? O que o senhor e seus colegas mais gostariam de conseguir, em termos de ajuda na produção de alimentos?
  • Acima de tudo, necessitamos aumentar a produtividade, para que não haja necessidade de expandir a agricultura para novas áreas, em especial aquelas de vegetação nativa. Mas, também, precisamos de plantas mais resistentes às pragas, de encontrar formas alternativas de controle de pragas, dispor de plantas que suportem estresses como secas ou inundações, melhorar a qualidade dos alimentos, aumentar o seu valor nutricional e dispor de alimentos que auxiliem na melhoria da saúde da população, em especial os alimentos funcionais.
  • Nesse sentido, qual será o papel dos alimentos transgênicos no objetivo de alimentar 10 bilhões de pessoas daqui a 40 anos?
  • Não apenas plantas transgênicas, mas especialmente plantas obtidas com as novas técnicas de melhoramento (as new breeding tools), uma evolução das técnicas de transgênese, serão essenciais no futuro, para que possamos dispor de plantas mais resistentes a pragas, com maior valor nutricional, resistentes a estresses e que apresentem características favoráveis à melhoria das condições de saúde das pessoas.

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Publicado em Mundo Agro