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Cerco ao abuso

Mulheres que romperam o silêncio e denunciaram casos de assédio sexual são as “Personalidades do ano” da revista Time

10.01.2018 - Por Bayer Jovens

Uma cantora de sucesso, uma atriz famosa, uma engenheira que trabalhou no Uber, uma ativista e executiva da Visa e uma trabalhadora rural mexicana que preferiu manter-se no anonimato: é esse o poderoso time de mulheres que ganhou a capa da edição da Time que anunciou o prestigioso título de “Personalidades do ano”. A eleição é feita pela revista norte-americana desde 1927 e, 90 anos depois, a escolha deixou claro que 2017 ficará marcado como o ano em que as mulheres decidiram romper o silêncio e denunciar os abusos e o assédio sexual de que são vítimas.

As cinco mulheres da capa – Taylor Swift, Ashley Judd, Susan Fowler, Adama Iwu e Isabel Pascual (pseudônimo) – representam um grupo numeroso que passou a ser chamado de Silence Breakers, algo como quebradores do silêncio, ou seja, as pessoas que finalmente romperam o tabu e decidiram se expor para pôr fim às agressões sexuais que ocorrem nos mais diferentes setores da sociedade. O estopim para a criação do movimento contra o assédio nos Estados Unidos foi a revelação das investidas de Harvey Weinstein, um poderoso produtor de Hollywood.

A partir da publicação dessas denúncias, a campanha #MeToo (eu também) viralizou nas redes sociais e provocou, entre outras consequências, o cancelamento de séries e filmes e um baque na carreira de astros como Kevin Spacey, cortado de House of Cards, acusado de assediar homens que trabalhavam na produção.

Logo na abertura da reportagem de capa, os editores da Time deram o tom da homenagem: “Estrelas de cinema não são, supostamente, como eu e você. Elas são esbeltas, glamurosas e cheias de si. Elas usam vestidos que não podemos pagar e vivem em casas com as quais nós só podemos sonhar. No entanto, nos caminhos pessoais mais profundos e dolorosos, as estrelas de cinema são mais como você e eu do que imaginamos”.

Foi um belo reconhecimento da coragem dessas celebridades de se exporem à opinião pública para denunciar casos de abuso que até então costumavam ser varridos para debaixo do tapete dos grandes estúdios, das empresas e de outros ambientes profissionais, em um perverso jogo de poder. A homenagem, segundo a Time, tem também o objetivo de motivar outras pessoas a quebrar o silêncio, mesmo pagando um preço alto.

A revista destacou o exemplo de Ashley Judd, que em 1997 foi assediada por Harvey Weinstein, quando sua carreira começava a decolar. Ao revelar o caso a um jornal, a atriz ficou marcada e entrou na lista negra de Hollywood. Taylor Swift acusou um radialista de tê-la molestado durante uma sessão de fotos. A cantora foi processada por calúnia e teve a carreira ameaçada, mas seguiu em frente até ganhar o caso na justiça. Ao lado de Ashley e Taylor, entre outras premiadas estão as atrizes Rose McGowan, Selma Blair e Alyssa Milano, a ativista Tarana Burke e a senadora estadual Sara Gelser.

 As vozes que lançaram o movimento: a partir da esquerda, de pé, Ashley Judd e Taylor Swift; sentadas, Isabel Pascual, Adama Iwu e Susan Fowler; o braço no canto inferior direito representa, provavelmente, as mulheres que ainda não tiveram a coragem de denunciar.
Crédito: Time/Reprodução

Com data de 18 de dezembro, a edição especial da Time merece ser objeto de reflexão, assim como este parágrafo do texto da reportagem de capa: “Essas mulheres que quebraram o silêncio começaram uma revolução de recusa, reunindo forças a cada dia. E, nos últimos dois meses, o engajamento coletivo rendeu resultados chocantes: quase todo dia CEOs foram demitidos, magnatas foram retirados do topo, ícones caíram em desgraça. Em alguns casos, processos criminais foram abertos”.