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Carga pesada

Estudos mostram que as jornadas sem remuneração cumpridas por muitas mulheres são mais duras do que se imaginava

11.06.2018 - Por Bayer Jovens

Mães com filhos pequenos ouvem com frequência essa pergunta incômoda: “Mas você não trabalha?” Pois não há melhor resposta do que um estudo encomendado pela ONU segundo o qual as mães que ficam em casa trabalham o equivalente a dois empregos e meio em tempo integral, com turnos corridos de 14 horas, todos os dias da semana, sem folga e sem remuneração. Em média, cada uma dessas mulheres conta com apenas 1 hora e 7 minutos por dia para si mesma.

Profissão Mãe

A pesquisa foi feita para a ONU Mulheres, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas lançada em 2010 e dedicada à igualdade de gêneros e à participação igualitária das mulheres em todos os aspectos da vida. Foram entrevistadas 2 mil mães norte-americanas com filhos entre 5 e 12 anos e constatou-se que, em média, a jornada de trabalho delas começa às 6h23 e só se encerra às 20h32. Quatro entre dez mães disseram que a vida delas parece uma série interminável de tarefas, sem descanso.

Além da dedicação aos filhos, a maioria da mães assume a responsabilidade de preparar as refeições da família e fazer a limpeza da casa, as compras e muitos outros serviços que, embora não sejam remunerados, exigem esforço, conhecimentos específicos e poder de decisão. Por outro lado, a pesquisa mostra que também os homens realizam uma parcela considerável de trabalho não remunerado, sem contar que um número crescente de pais fica em casa para cuidar dos filhos.

“O trabalho não remunerado apoia a economia e muitas vezes é resultado da falta de investimentos públicos em serviços sociais e infraestrutura. De fato, as tarefas não remuneradas e o trabalho doméstico equivalem, respectivamente, a um valor entre 10% e 39% do produto interno bruto de um país”, afirma a análise “Mulheres em mudança no mundo do trabalho”, da ONU Mulheres.

Embora a pesquisa tenha se limitado à realidade dos Estados Unidos, a situação na maioria dos outros países não é muito diferente. No Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017 divulgada em abril pelo IBGE, entre 2016 e 2017 o percentual de pessoas de que realizavam afazeres domésticos e cuidados de pessoas cresceu de 82,7% para 86%, chegando a 145 milhões de indivíduos, com um detalhe importante: enquanto a participação foi de 92,6% entre as mulheres, entre os homens foi de 78,7%.

“Além disso, as mulheres dedicam a essas atividades quase o dobro do tempo dedicado pelos homens, com uma média semanal de 20,9 horas, enquanto para os homens a média ficou em 10,8 horas por semana”, esclarece o comunicado do IBGE. Outro dado curioso revelado pela pesquisa: entre os homens, quanto mais alto é o nível de instrução, maior é a dedicação às tarefas domésticas, saindo de 73% no menor padrão de educação formal e chegando a 83,8% entre os que têm superior completo.