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Barreira linguística? Aqui não!

Habitantes de uma comunidade na Austrália se comunicam em nove diferentes idiomas e todo mundo se entende. Descubra como isso é possível!

20.08.2019 - Por Bayer Jovens

Warruwi é uma comunidade com apenas 500 habitantes e, acredite se quiser, eles se comunicam em nove idiomas diferentes. A região, localizada em South Goulburn Island – uma pequena ilha no norte da Austrália –, talvez seja um dos últimos lugares no mundo em que tantas línguas indígenas coexistem de forma tão original. Além do inglês, a população também se entende em mawng, bininj kunwok, yolngu-matha, burarra, ndjébbana, kunbarlang, iwaidja e torres strait creole.

Barreira linguística? Aqui não!

Nancy Ngalmindjalmag e Richard Dhangalangal são um bom exemplo de como se dá essa comunicação baseada em diversas línguas. Mesmo sendo casados e vivendo juntos, usam em suas conversas idiomas diferentes para se comunicar. Ela fala com ele em mawng, ele responde em yolngu-matha. Assim como os demais habitantes de Warruwi, entendem algumas ou todas as línguas, mas não as falam.

O fenômeno, que os linguistas chamam de multilinguismo receptivo, aparece em todo o mundo – por exemplo, você pode, apesar de não falar fluentemente, compreender idiomas como o espanhol ou o italiano, se exposto a eles com alguma frequência. Assim como crianças imigrantes que, apesar de aprender a falar a língua do país de acolhimento, continuam a entender o idioma de seus pais.

Em muitos lugares, o multilinguismo receptivo acontece de forma acidental, mas, na comunidade warruwi, o fenômeno desempenha um papel especial. De acordo com Ruth Singer, linguista do projeto Wellsprings of Linguistic Diversity da Universidade Nacional Australiana, na comunidade warruwi somente algumas pessoas podem falar determinadas línguas. E há vários motivos para que isso aconteça.

Em alguns casos, o fato de não pertencer a determinado grupo – mesmo se relacionando com ele – tira o direito de utilizar aquela língua específica para se comunicar. Por não ser originalmente da comunidade, Richard, por exemplo, não pode se expressar no idioma de sua esposa. Falar em mawng poderia ser visto como uma quebra das regras que excluem os estrangeiros de reivindicar certos direitos. Demarcação de território e reconhecimento de diferentes clãs também tiram ou dão o direito de falar determinadas línguas.

Além disso, o multilinguismo receptivo respeita as diferenças sociais, a complexidade cultural e linguística e a identidade dos habitantes da comunidade australiana. “A diversidade social e linguística em Warruwi é vista como essencial para a harmonia social, e não como uma barreira, e ressalta a necessidade das pessoas reivindicarem diversas identidades, em vez de todos se identificarem como iguais”, afirmou Singer em matéria da revista norte-americana The Atlantic.

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Bayer Jovens