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Aguapé: praga verde ou solução?

Cientistas britânicos e brasileiros descobrem como a planta amazônica que se reproduz sem controle pode ajudar a limpar os rios

06.06.2019 - Por Bayer Jovens

Ela costuma ser chamada de “praga verde”, uma planta que se prolifera com tanta velocidade que se tornou um problema ambiental. Ao mesmo tempo, pode se tornar uma solução simples e natural para a despoluição de rios no Brasil e no mundo. Esses são os dois lados contraditórios do aguapé (Eichhornia crassipes), uma planta aquática flutuante natural da bacia amazônica com grandes folhas redondas, que, quando floresce, produz flores azul-arroxeadas.

O problema é que, apesar de bonito e simpático, o aguapé costuma ser um tremendo problema, devido à sua enorme e descontrolada capacidade de reprodução. Por exemplo, a represa de Salto Grande, em Americana, no interior de São Paulo, é uma das muitas que sofrem com a superpopulação da planta, que compromete a oxigenação, a qualidade da água e o abastecimento da região. Em outras represas brasileiras, o aguapé paralisa turbinas de geração de energia e impede a navegação, especialmente ao longo do rio Tietê.

Porém, se por um lado o aguapé é uma praga incontrolável, por outro tem a capacidade de retirar toxinas da água. Essa propriedade não é nenhuma novidade e os botânicos já conheciam seu poder despoluidor há muito tempo. Ocorre que, até agora, os pesquisadores não sabiam como lidar com essa natureza reprodutiva desenfreada. Os resultados de tentativas anteriores foram, em geral, rios entupidos de plantas, sem peixes, repletos de mosquitos e impossíveis de navegar.

Parvez Haris, professor da Escola de Ciências Aliadas da Saúde da Universidade Montfort, de Leicester, na Inglaterra, acertou onde outros cientistas erraram. Ou seja, conseguiu reverter o impacto negativo do aguapé em experimento feito em um trecho do rio Nant-y-Fendrod, em Swansea, no País de Gales, que durante 240 anos, entre 1720 e 1960, recebeu toneladas de resíduos tóxicos resultantes da produção de cobre na época em que a região foi um centro mundial de extração do minério.

Em artigo publicado na revista científica Nature, Haris e sua equipe explicaram que, para evitar a contaminação do ambiente, mantiveram o aguapé – chamado no Reino Unido de jacinto aquático – em gaiolas e tanques, enquanto instrumentos de medição de última geração avaliavam a composição da água. O experimento, chamado de biorremediação (processo no qual se empregam organismos vivos para recuperar áreas poluídas), foi realizado em três estágios, dois em laboratório e o terceiro no próprio rio Nant-y-Fendrod, e apresentou resultados animadores.

Em todos os casos, a planta removeu quantidades consideráveis de zinco e outros metais presentes na água. Como o aguapé estava fora dos trópicos, seu habitat natural, o estudo foi realizado no verão britânico, em temperaturas bem mais baixas do que as do Brasil e, principalmente, da Amazônia. Esse foi um dos pontos destacados pelo pesquisador britânico, além do fato de que o experimento ocorreu em ambientes e situações diversas, o que permitiu à equipe investigar o comportamento do aguapé em várias condições climáticas.

“Esse estudo, de pequena escala, teve o objetivo demonstrar um conceito, de que a ideia funciona. Feito isso, você pode repeti-la em grande escala”, disse Haris em entrevista à BBC News Brasil. Depois da conclusão do estudo, Haris buscou uma parceria com pesquisadores brasileiros, a fim de testar a técnica também nos nossos rios, em maior proporção.

Alcides Lopes Leão, pesquisador da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), já discute o acordo com a equipe britânica. O cientista brasileiro e a colega Ivana Cesarino, também da Unesp, entrariam na fase pós-biorremediação, para buscar uma maneira de exterminar ou dar um novo uso à raiz da planta, que acumula a maior parte dos metais tóxicos absorvidos.

Uma solução seria fazer a planta passar por um processo de fermentação e, com isso, “produzir álcool, o etanol 2G, de segunda geração”, explicou Leão. O bagaço que sobrar do procedimento poderia ser usado para “gerar produtos plásticos usados, por exemplo, para encapar os fios elétricos que vão dentro das paredes”, sugere o pesquisador da Unesp.

Os estudos ainda se encontram em fase inicial, mas o que já foi descoberto criou uma possibilidade real de que uma praga natural possa ser utilizada para uma boa causa, de grande efeito para a despoluição do ambiente. Assim, seria revertida a imagem negativa do aguapé, a planta genuinamente brasileira.