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A realidade do privilégio

Perspectivas do real e privilégios: a necessidade de questionar a razão! É comum que os privilégios não sejam percebidos por quem os usufrui

10.05.2018 - Por Diversidade

Um post nas redes sociais discute a importância do cuidado com as demandas psicológicas e emocionais da população negra no Brasil ante o sofrimento psíquico advindo do racismo e que, diante de tantas outras demandas da vida, ficam em segundo plano. Composta por um texto e vídeo, o intuito da discussão era o de chamar a atenção da população negra para o cuidado com seu emocional e psiquismo. No entanto, o vídeo (no qual Djamila Ribeiro é entrevistada) publicado com o texto chama a atenção de uma maioria para questões outras, que sequer foram propostas. Djamila se propõe a elucidar a impossibilidade de se realizar qualquer discussão no Brasil, sem levar em consideração questões como raça, gênero e classe.

A sessão de comentários do post passa a receber uma gama de opiniões e críticas sobre o quanto as pessoas negras são racistas consigo mesmas, o quanto as cotas são um desserviço, como os negros se vitimizam. Outros comentários destacam aquele amigo negro bem-sucedido, que tal pessoa conhece. Se ele conseguiu concluir o doutorado, todos os outros negros também podem, basta que eles se esforcem.

Embora a discussão gerada nos comentários fuja da proposta planejada para a postagem, as manifestações nos comentários valem a discussão! A discussão que esses comentários nos propõem é a falta de percepção dos privilégios que muitos de nós possuímos.

Talvez, o que os autores dos comentários não tenham notado seja, justamente, sua posição social, a mesma posição social que Djamila Ribeiro discutia no vídeo, ou seja: raça, gênero e classe.

Se você for um homem branco de classe média, certamente seu acesso a uma escola de boa qualidade, cuidados com a saúde (tanto física como mental) e outros cuidados que podem parecer básicos ou primordiais, foi assegurado com uma maior facilidade, se compararmos ao mesmo acesso por pessoas em outra posição social, como a de homens negros periféricos. Esses acessos ficam mais restritos de acordo com a posição social de cada indivíduo, o que por sua vez, coloca esses indivíduos em situações menos privilegiadas.

É comum que esses privilégios não sejam percebidos por quem os usufrui, o que, por sua vez, leva muitas pessoas a terem opiniões próximas as dos comentários do post que deu início a esse texto. O fato de estarmos habituados a viver numa realidade onde um contexto específico garante o acesso a bens, serviços e lugares, nos dá uma perspectiva de mundo que, por vezes, pode parecer única. Porém, é necessário perceber que nossa perspectiva é apenas mais uma entre muitos pontos de vista sobre o mundo e a realidade que conhecemos. Quando essa percepção se perde, passamos a nos relacionar com as pessoas e com o mundo apenas de acordo com nossas vivencias, julgando o outro com base naquilo que acreditamos ser a verdade. Uma visão empática deveria considerar as experiências do outro, e que o levaram a tomar determinadas atitudes ou a chegar em determinados espaços.

Funciona como se enxergássemos o mundo através de uma lente. Imagine que essa lente esteja suja, isso fará com que nossa perspectiva sobre aquilo que olhamos se altere. Sendo assim, para conseguir se relacionar melhor com aquilo que está diante de nós, é necessário limpar um pouco a lente. Nessa situação hipotética, a lente é o nosso crivo moral. A sujeira que vai se acumulando diante dela, nossas crenças. Aquilo que vemos e nos relacionamos, a realidade. Nós não conseguimos nos desvencilhar de nosso crivo moral, mas à medida que nos despimos de nossas crenças na relação com o outro, vamos nos aproximando da realidade do outro e construindo uma relação mais saudável.

Não há problemas em ser, de alguma maneira, privilegiado, já que, em geral, sempre possuímos um ou outro privilégio. O problema é não reconhecer os privilégios que você possui. Nem sempre se pode escolher uma condição privilegiada, como ser uma pessoa branca, heterossexual, que em nossa configuração e estrutura social, são condições que concedem privilégios aos indivíduos (por não sofrerem preconceito com sua sexualidade ou racismo). Por outro lado, quando o grupo usado como exemplo não reconhece seus privilégios, muito provavelmente irá se relacionar, com pessoas que não fazem parte desse grupo, de maneira hostil e até mesmo opressiva.

Essa é uma questão que surge com frequência na clínica psicológica de base psicanalítica. Muitas pessoas com dificuldades de relacionamento não conseguem perceber a necessidade de limpar as lentes do crivo moral para melhorar a maneira como se relacionam. Essa capacidade empática de tentar se despir de suas crenças para tentar entender a vivência do outro, é um exercício que precisa ser treinado!

Outro dia, participando de um congresso, ouvi da palestrante que, quando criança, num momento de embate, a mãe mostrava o dedo indicador e perguntava a ela: “esse dedo tem unha ou não?”. Ao responder que sim, a mãe dizia: “do meu ponto de vista não tem”. Em seguida a mãe perguntava: “quem tem razão?”. Seus privilégios servem para te dar a razão? Então é melhor questioná-los!

Diogo Salviano

Diogo Salviano é psicólogo clínico e destina parte de seus estudos e produção a forma como o processo psicoterápico é realizado na abordagem psicanalítica, atendendo em psicodiagnóstico e psicoterapia individual (crianças, adolescentes e adultos) com base em psicanálise. É também interessado em pautas e movimentos sociais, mais especificamente relacionadas as questões raciais e LGBT.

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