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Quem faz o agro

A “fábrica de água” de Paolinelli

Engenheiro agrônomo desenvolve há mais de 30 anos um trabalho de conservação da água da chuva no solo e recupera áreas com voçoroca

25.06.2019 - Por Bayer Jovens

Hoje, o engenheiro agrônomo Marco Túlio Paolinelli é um produtor rural e empresário bem-sucedido, à frente de um grupo que, com sede em Uberaba, no Triângulo Mineiro, comanda empresas em diferentes áreas, da criação de gado à fabricação de móveis com madeira que ele mesmo planta. Para chegar a essa situação, Paolinelli recorreu ao espírito empreendedor, à criatividade, à inovação e, sobretudo, à paixão pela natureza e pela preservação dos recursos naturais e à certeza de que, como ele diz, “todo sonho é possível”.

Quando era estudante, para pagar a faculdade de agronomia, ele fez um pouco de tudo: foi garçom, barbeiro, mascate, palhaço e mágico. Depois de formado, parece ter mantido o gosto pela versatilidade e pelo senso de oportunidade. Depois de trabalhar em uma indústria de fertilizantes, percebeu que uma grande quantidade de gesso era descartada no processo de fabricação. Paolinelli sabia que o gesso poderia ser usado para aumentar a produtividade na agricultura e decidiu investir na ideia e, em 1989, pediu demissão e fundou a Agro Comercial e Representações, que daria origem ao Grupo Agronelli

Daí em diante ele não parou de se expandir e diversificar. Passou a vender fertilizantes e sementes de milho, fez uma parceria com a Embrapa para pesquisar a utilização do gesso agrícola e comprou terras na região de Uberaba. Depois abriu filiais em Timóteo (MG) e em Cajati e Cubatão, no estado de São Paulo. Mas o talento para a mágica que ensaiou na época de estudante acabou se transformando em realidade quando, acreditem, Paolinelli resolveu “fabricar” água.

Literalmente, não é possível produzir água, até porque a quantidade é sempre a mesma no planeta, mas Paolinelli sabia que daria para aproveitar melhor os recursos hídricos e racionalizar sua utilização. Por meio dos projetos Produtor de Água e Águas Perenes, ele desenvolveu sistemas de preservação dos lençóis freáticos para recuperar áreas com voçoroca, um fenômeno geológico caracterizado pela forte erosão da terra provocado, entre outras causas, pelo desmatamento e pela retirada da cobertura natural.

A primeira fazenda que Paolinelli comprou, em Uberaba, tinha verdadeiras crateras com mais de 10 metros de profundidade. Para domar as voçorocas e recuperar a terra, ele construiu mais de 12 quilômetros de curva de nível e centenas de bolsões de água da chuva, com a orientação de técnicos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e plantou muitas árvores, mais de 120 espécies nativas, para a recomposição da mata ciliar. As curvas de nível ajudam a água a se infiltrar no solo, os bolsões retêm a água da chuva e as raízes das árvores seguram a terra. Resultado: onde havia deserto, as nascentes foram recuperadas, a vegetação se recompôs, a vazão dos rios aumentou e surgiram minas de água ativas mesmo nos períodos de seca.

O plano de Paolinelli foi além da recuperação de sua propriedade e, atualmente, ele estimula a utilização dos projetos também para melhorar o abastecimento de água das cidades e para a irrigação das culturas de inverno e já fez uma parceria com a Codau, responsável pela água e pelo saneamento de Uberaba. Também ajuda pequenos agricultores da região a construir curvas de nível e bolsões e criou o Instituto Agronelli de Desenvolvimento Social, que promove a educação ambiental e incentiva a pesquisa.

Alguns dos resultados são surpreendentes, como o aumento da vazão do rio Borazinho, um afluente do Borá que nasce na fazenda de Paolinelli e ajuda no abastecimento de Uberaba. Como explicou em entrevista à revista Globo Rural, há quatro anos, durante uma seca, o Borazinho, que normalmente tem menos água do que o Borá, estava com vazão maior do que o rio principal. Intrigado, Paolinelli começou a medir semanalmente a águas dos rios e verificou que as curvas de nível e os bolsões que construiu ao longo do afluente ajudaram a reter a água da chuva e a abastecer o lençol freático.

“Podemos dizer que nós contribuímos para isso com o projeto da fábrica de água e aumentamos em 8% a vazão do rio no período da seca, e isso é uma coisa extraordinária, porque realmente estamos fabricando água. Quero deixar um legado para a sociedade”, disse Paolinelli, orgulhoso de sua “mágica” ambiental. E, mais do que nunca, certo de que os sonhos são mesmo possíveis.

Bayer Jovens