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Você já deve tratar da sua sucessão no agro. Não só na crise!

Sucessão é a continuidade do negócio, entre a família, para as próximas gerações.

22.09.2020 - Por Mundo Agro

Um(a) produtor(a) sentado(a) no cocho de frente ao curral no fim do dia, com as mãos calejadas, a roupa suja, o pasto baixo, animais magros, a lavoura perdida, conta no vermelho e a desilusão na porteira esperando pela frase: “parei, não consigo mais sozinho(a)”. E não foi por falta de suor, de acordar cedo ou de desejar e merecer o sucesso. É porque o processo de transferência das técnicas de produção, de liderança, de sucessão e de amor do negócio rural foi negligenciado por muito tempo. O chapéu precisa passar para outra cabeça, e não é na crise!

A saída dos jovens do campo, principalmente em busca de uma administração profissional em cidades com sistemas de governança corporativa, traz à tona a preocupação com a nova estruturação interna de empresas rurais familiares. Não é uma boa estratégia esperar o trágico cenário descrito acima chegue para se atentar que precisamos formar sucessores, e não herdeiros! Com o menor número de filhos, pode ser que nenhum se interesse pelo negócio, acabando na geração dos próprios criadores. O processo sucessório não trabalhado pelos pais é o maior causador do êxodo rural.

Sucessão é a continuidade do negócio, entre a família, para as próximas gerações. E isso não deve ser feito na crise, mas sim nos momentos bons na família. Porque, caso contrário, em vez de gerar sucesso, cria trauma. O processo de sucessão tem que ser feito em vida, não em morte, não na ausência, e sim no companheirismo, na orientação e na troca de conhecimento.

No passado a base era adquirir cada vez mais terra por questões inflacionárias, como critério de proteção. Contudo, esse não é mais o principal fator de interesse dos futuros donos. As prioridades agora passam a ser integradas com gestão estratégica, sustentabilidade, marketing e tecnologia. O uso de tecnologias facilita, consideravelmente, o processo de sucessão e atrai a nova geração para o campo. Seja na comunicação, seja nas máquinas, nos insumos, na inovação, nos processos produtivos ou no mercado. Na parte da gestão agropecuária, não só administrativa, mas também na liderança do agronegócio brasileiro, destaca-se a participação decisiva do público feminino jovem.

Com a longevidade das pessoas, com gerações totalmente diferentes, tendo avós, pais, filhos e netos atuando na mesma produção, concomitantemente, é preciso ter em mente que terão decisões estratégicas da propriedade, como em um fórum familiar. Em que todos discorrem, discutem e decidem o planejamento estratégico. Um dos principais causadores do processo de sucessão não dar certo é a falta de comunicação. Quando o filho está fora do negócio e não participa de nenhuma decisão, quando precisa assumir, ele prefere vender. De acordo com a Safras & Cifras, 60% do fracasso se dá pela falta de comunicação e 25% pela falta de preparo dos sucessores.

O processo de sucessão é lento, pois não é um contrato social imediato. Vai além disso. Acordos societários e estabelecimento de protocolos familiares são documentos que devem ser redigidos após o comprometimento e a decisão familiar. O processo de sucessão tem o envolvimento tributário, que é a maior despesa, e o planejamento reduz os impostos e o impacto no custo dessas transmissões de patrimônio. Temos que ter sistemas que nos permitem controles econômicos, financeiros, de dividendos e tributários, para usarmos na gestão do dia a dia, nos fóruns familiares e no planejamento das divisões e investimentos, diminuindo conflitos, e melhorando a comunicação e a transparência. Existem empresas que podem auxiliar a família nesse processo e até em cursos, como o Holding Rural, que norteiam todo o trâmite legal. No Sistema Faeg/Senar/Ifag, o programa Faeg Jovem estimula a sucessão familiar e representativa no campo, por meio de capacitações, realização, e participação em eventos e formação de líderes empreendedores.

Estamos vivendo, talvez, a maior crise de saúde e humanitária no período de pós-guerras mundiais, e que terá consequências drásticas na economia, gerando perda na capacidade de compra e venda, desempregos e crise generalizada. Não pode ser só nesse momento que devemos refletir sobre como será o amanhã do seu negócio rural e, principalmente, o que fazer para não estar no cenário do primeiro parágrafo desse texto. A projeção da sua propriedade e de amigos(as) produtores(as) depende de como vocês refletem o dia a dia no campo, fortalecem a comunicação e a transparência, e realizam fóruns familiares. A propriedade no futuro tem que ficar no grupo familiar, pois os produtores de amanhã estão esperando a oportunidade de usar o seu chapéu. Cabe a vocês decidirem se pegarão de suas mãos ou do chão!

Dirceu Borges

Dirceu Borges é zootecnista, produtor rural e superintendente do Senar Goiás.

Publicado em Agro Agora