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Uma reflexão sobre inclusão

No cotidiano, as cenas de desconhecimento sobre o outro ainda fragilizam a atitude inclusiva.

24.09.2020 - Por Diversidade

Já viram a cena em que o advogado vai ao escritório do colega para que ele o represente numa ação contra a empresa que o demitiu por ter contraído HIV, no filme Philadelphia? Denzel Washington recebe Tom Hanks em seu escritório e o cumprimenta normalmente, mas quando o colega revela a doença, involuntariamente Denzel procura limpar a mão que apertou a do amigo.

Nos primeiros tempos da Lei de Cotas, eu fui convidado a desenvolver a diversidade e inclusão no RH de uma empresa brasileira de mil pessoas. Eu era estudante de psicologia, ansioso para implantar programas de inclusão, mas estava cauteloso. Sabia do desafio e queria que as coisas dessem certo, afinal. Minha estratégia foi olhar ao redor, observar o clima organizacional, analisar a linguagem e a cultura do lugar. Entrevistava todo mundo, e tudo me levou a optar por começar pela sensibilização. Contratamos uma consultoria para sensibilizar os gestores sobre essa população desconhecida e suas particularidades. A alta gestão e as lideranças estavam contentes com essa iniciativa na empresa, viam aquilo como uma ação de responsabilidade social.

No dia da palestra contratada, nós reunimos lideranças e estafe de RH para assistirmos a uma ótima apresentação. Os meus colegas líderes que estavam próximos a mim estavam bem animados com o rumo moderno que a empresa tomava. À certa altura, o palestrante se dirigiu a todos: “alguém aí tem algum tipo de deficiência? Levante a mão.” Eu, que sou DA (deficiente auditivo) levantei o braço. Involuntariamente, os meus colegas e líderes ao meu redor deram um olhar perdido e um passinho para trás. O problema não era o meu braço levantado, que fique claro. Era outra coisa. Era aquilo que sempre gera preconceito e medo do desconhecido: a ignorância.

Nos dois casos, fica claro que a ignorância turva a lucidez. Se a pessoa não tem conhecimento do que se trata a doença (no caso do filme), das limitações e possibilidades de uma pessoa com deficiência, ou não respeita a escolha pessoal de cada um, jamais saberá como agir com clareza quando tiver que lidar com a diversidade. Inclusão não é assistencialismo, nem reparação. É obter conhecimento a respeito do outro e acolher o seu universo, de modo que cresça o mundo em que você vive.

Luís Von Martens, psicólogo e educador inclusivo, segue a linha humanista e soma experiência de mais de 30 anos em RH. Na foto, com seu fiel escudeiro Chester Francisco.

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