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15.03.2017 por Vanessa Barbara

Um brinde ao “não”

Uma reflexão sincera sobre como a rejeição pode ser positiva por nos fazer melhores e mais fortes para enfrentar a vida

Em Wanju, na Coreia do Sul, uma mulher de 69 anos de idade passou mais de cinco anos tentando tirar a carteira de motorista. Ela comparecia quase todos os dias ao local do teste escrito, que ficava numa cidade distante, e falhava estrondosamente. Apesar da descrença de seus professores, continuava tendo aulas, estudando e repetindo a prova. Tentava memorizar as questões e as respostas, mesmo que não entendesse bem o sentido.

Finalmente, após 949 tentativas, Cha Sa-soon passou no teste. Mais dez míseras investidas no exame prático e ela enfim tirou a carta, para delírio dos funcionários e de todo o país, que já acompanhavam atentamente a saga. “Eu queria a carteira de motorista para poder levar os meus netos ao zoológico”, explicou. Além disso, ter um carro facilitaria em seu trabalho com a venda de legumes.

Há um ditado coreano que diz: “Nocauteado quatro vezes, levantou-se cinco”. Por mais paradoxal que seja, receber um “não” categórico pode ser positivo, pois nos obriga a seguir caminhos inesperados e nos fortalece de uma forma que os sucessos não são capazes de fazer.

Uma tonelada de escritores famosos coleciona por esporte cartas de rejeição de editoras – Harry Potter foi desdenhado várias vezes antes de ser publicado. Esnobado por 14 casas editoriais, o lendário poeta E. E. Cummings teve de pedir dinheiro emprestado à mãe para publicar seu primeiro livro, que ele intitulou No, Thanks (Não, Obrigado) e dedicou nominalmente às editoras que o menosprezaram.

Mas é claro que uma história de fracasso pode apenas ser uma história de fracasso, sem nenhum tipo de redenção apoteótica por trás – pelo menos não aparentemente. A recompensa vem apenas aos poucos, com o tempo, quando olhamos para trás e notamos que as coisas até que se encaixam.

Minha primeira grande rejeição foi quando não passei no vestibular da Fuvest, depois de uma vida inteira de notas altas. Achei que ali meu destino já estivesse selado, ainda mais porque acabei optando por uma faculdade particular que não estava à altura das minhas pretensões ao Pulitzer. Não ganhei a bolsa de iniciação científica que eu queria, mas ganhei outra. Quando já estava resignada a trabalhar para sempre como revisora de um site de fofocas, tive oportunidades aqui e ali e, no fim das contas, fui parar em lugares incríveis.

Recebi incontáveis cartas de recusa do meu primeiro livro, que acabou ganhando o Prêmio Jabuti de Reportagem. Não passei no teste de proficiência em inglês da faculdade e hoje escrevo para o New York Times. Fui preterida e demitida de empregos uma porção de vezes, e me senti bastante fracassada outras tantas.

Talvez, se eu tivesse passado naquele vestibular, seria agora prepotente e preguiçosa. Em lugar disso, fui seguindo com esforço todos os caminhos que se abriram.

E afinal, quem se importa se Cha Sa-soon não é a melhor motorista do continente asiático e se jamais irá competir na Fórmula 1? Pelo menos agora ela vai poder levar os netos ao zoológico. E vender seus legumes.

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