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Sonhar é o primeiro passo para a conquista

A representatividade como ferramenta na construção de realizações.

02.10.2020 - Por Diversidade

Nasci no Nordeste de Amaralina, bairro popular de Salvador (BA), onde desde cedo observava o esforço, a confiança e uma pitada de malabarismo financeiro para que minha família pudesse cumprir com as responsabilidades orçamentárias. Desde a infância, fui orientada por minha avó a ter aplicação aos estudos, enquanto minha mãe se dividia entre dois empregos para garantir o sustento da casa. Foram anos de dedicação às atividades escolares – fato que direcionou o início de minha trajetória na Monsanto, atualmente incorporada pela Bayer – com o sonho de rebocar as paredes de minha casa (hoje identifico que, quando não temos referências, até os sonhos são limitados).

A temática racial acompanha a minha existência, porém, no passado, não possuía nenhum letramento. Minha fala era pautada na soberania da justiça e, por muitas vezes, recorri ao contexto socioeconômico para explicar a desigualdade de oportunidades entre os meus. Atualmente, tendo mais acesso a fontes de conhecimento afrocentradas, sinto que ainda há muito para aprender, mas compreendi que o racismo explica muito do que eu não conseguia argumentar durante minhas colocações no ambiente escolar.

Quando questionada sobre os episódios de racismo pelos quais passei, tenho exemplos desde a primeira infância para citar. Contudo, aqueles que me causaram maior impacto têm relação com a maternidade. Senti-me atingida mortalmente quando fui confundida com a babá de meu filho. Não porque considero demérito atuar nessa profissão tão digna e necessária, mas porque percebi que naquele momento o racismo me atravessara de tal maneira que poderia atingir o que eu mais amo na vida: meu filho.

Durante os anos de minha atuação profissional, o interesse pela inclusão e diversidade sempre se fizeram presentes. Em muitas ocasiões, dialoguei com pares a fim de evidenciar que o respeito ao próximo, independentemente de credo, gênero, orientação sexual ou raça, deve prevalecer. No caminho da defesa dos grupos de minorizados, surgiu a oportunidade de integrar o grupo de afinidade BayAfro. Nesse espaço, pude manifestar com liberdade perspectivas sobre as desigualdades relacionadas à população negra e encontrei acolhimento para colaborar com processos de mudança no cenário corporativo. Trata-se de uma atmosfera de muita troca, aprendizado e de conquistas que trazem alento ao meu coração.

Paralelo a esse panorama, sendo composta, entre outros, pela interseccionalidade entre raça e gênero, ainda não me via representada em patamares mais elevados do organograma empresarial. Durante muitos anos, que foram intercalados por perdas familiares, formação acadêmica, maternidade, casamento e trabalho árduo, a falta de representatividade impactou minhas decisões profissionais. O divisor de águas veio em 2017, quando um programa de mentoria possibilitou ter Sílvia Malaman como minha mentora. Ela me encorajou a acreditar que eu podia mais, aguçou o potencial que eu trazia guardado e me desafiou oportunamente rumo ao crescimento. Nesse ínterim, adotei como lema uma frase muito conhecida, “o não eu já tenho”, a qual eu acrescentei: “vou em busca do sim que eu desejar conquistar!”

Iêda Silva de Almeida tem formação técnica em Química pelo CEFET-BA, graduada em Fisioterapia pela USCAL e Pós-graduada em Higiene Ocupacional (UFBA) e Fisioterapia do Trabalho (CBES-SP). Atualmente com 40 anos, exerço atribuições de filha, esposa e de especialista de unidade no site de Camaçari-BA, um ramo predominantemente masculino. Porém, a função que executo com maior prazer é ser mãe de Isaac. Tenho o sonho de ver uma sociedade equânime, onde não seja necessário discutirmos sobre racismo e seus impactos e em que a diversidade de forma ampla e genuína possa ser vivenciada.

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