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Sobre banheiros, acesso e intimidade

Por que precisamos contar com banheiros acessíveis, seguros, limpos, confortáveis para homens, mulheres, pessoas trans, pessoas com deficiência?

13.06.2018 - Por Diversidade

Outro dia eu levei um susto muito grande em uma reunião dentro de uma unidade industrial de uma companhia multinacional, cuja planta fica na cidade de São Paulo, onde fui chamada para estruturar um projeto de inclusão de pessoas com deficiência: fui informada de que, naquela unidade, não há banheiros para mulheres. No mesmo mês, em uma unidade de uma usina no Nordeste, realizando um trabalho de prevenção ao assédio e violência contra a mulher, eu soube por uma funcionária que lá também não tinham pensando em banheiros para mulheres e que ela reivindicou um quando foi contratada. Banheiro reservado para pessoas com deficiência? Para pessoas trans? Também não havia nestes ambientes. Como estamos no ano de 2018, cheguei a pensar que a ausência do banheiro para mulheres e para pessoas com deficiência fosse resultado de um processo evolutivo de discussões internas, por meio do qual os profissionais e lideranças chegaram à conclusão de que todos os banheiros são acessíveis para todas as pessoas e também são unificados para que possam ser usados por todos os gêneros, inclusive as pessoas trans (estima-se que cerca de 10% das pessoas trans estejam inseridas no mercado de trabalho). Mas eu estava enganada. O real motivo, me explicaram, é que a maioria dos profissionais que trabalham lá são homens, e por isto não se viu a necessidade de ter um banheiro para as mulheres.

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Me senti entrando na máquina do tempo, há 50, 100 anos, quando era estranho conviver com mulheres no ambiente de trabalho (exceto no pós-guerra quando elas eram necessárias para substituir os homens que estavam em campos de batalha). As que ousaram pagaram um preço alto, receberam salários muito menores que o dos colegas homens, foram assediadas como se estivessem ali para isto, fizeram jornadas duplas de trabalho fora e dentro de casa, carregaram a culpa de não conseguirem ser perfeitas em todos os papeis e, ainda, continham suas necessidades fisiológicas o dia todo, acarretando problemas de saúde. Eu gostaria de usar sempre estes verbos no passado, mas não é raro encontrar locais onde estas práticas são reproduzidas atualmente, e ouvir depoimento de mulheres que evidenciam o quando estas situações ainda acontecem. (Para quem quiser começar a entender mais sobre a saga das mulheres para serem reconhecidas como profissionais, recomendo assistir dois filmes, entre tantas referências: As Sufragistas e Estrelas Além do Tempo - este aborda a questão de gênero e racial).

Temos que celebrar os avanços que estas precursoras impulsionaram - hoje sabemos que as empresas que tem mais mulheres na liderança apresentam rentabilidade de até 20% a mais do que as que contam apenas com homens, e temos até um país, a Islândia, que aprovou, em 2018, uma Lei que obriga empresas a provar que salários entre homens e mulheres na mesma função são iguais. Porém, não esqueçamos de que a história da conquista do espaço profissional pelas mulheres é repleta de vitórias, mas também de humilhações e constrangimentos. Para as mulheres e homens com deficiência então, a situação é bem mais complicada – muitas vezes eles e elas não chegam nem na recepção da empresa, por causa das primeiras barreiras como degraus, escadas e trajetos inacessíveis.

Em 2006, a ONU divulgou a Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que foi ratificada pelo Congresso Nacional Brasileiro em 2008 (há 10 anos), passando a ter caráter constitucional, ou seja, está acima de todas as leis e deve ser cumprida por ser direito fundamental das pessoas com deficiência. Uma das mudanças mais significativas da Convenção da ONU foi o conceito das BARREIRAS como “O problema”, quando antes “O problema” era a DEFICIÊNCIA. As barreiras visíveis são as arquitetônicas, comunicacionais (se uma pessoa surda que se comunica em Libras chegar hoje na empresa, ela terá com quem se comunicar?), ferramentais, metodológicas. Porém a barreira atitudinal está acima de todas, e esta pode impedir mulheres, pessoas negras, trans, com deficiência, de diferentes origens, de terem acesso ao trabalho.

Quando os profissionais com deficiência conseguem chegar até a recepção da empresa, muitas vezes as barreiras atitudinais acabam empurrando estas pessoas para o isolamento e com isto não permanecem nos seus empregos (e escolas) e ficam com baixo acesso à renda e autonomia. Segundo o IBGE, 46% das pessoas com deficiência recebem um salário mínimo ou menos, e apenas 44% das mulheres com deficiência têm uma vida econômica ativa.

Voltando aos banheiros... por que precisamos contar com banheiros acessíveis, seguros, limpos, confortáveis para homens, mulheres, pessoas trans, pessoas com deficiência? Além de ser uma exigência legal, eu trago uma outra justificativa: já ouvi de algumas pessoas sábias que, para se conhecer uma família, uma escola, um hospital, uma empresa ou instituição, basta você observar como é o banheiro, que você terá um bom diagnóstico da cultura e, acima de tudo, sobre a liderança deste lugar. Quando você chega a um local com banheiro amplo, acessível e adaptado para quem usa cadeira de rodas, com banheiros limpos, bem cuidados, iluminados, com todos os itens necessários para sua higiene, e até quem sabe uma plantinha, claramente identificados que são para todos os gêneros e condições, a impressão que se passa é de gentileza e cuidado com os indivíduos que frequentam este lugar. Os gestores e gestoras passam a mensagem de que são líderes inclusivos, demonstram que praticam a acessibilidade atitudinal, deixam claro que ali todos são bem-vindos e bem-vindas, são respeitados na sua intimidade, na sua privacidade, sendo quem são, do jeito que são. Todos são importantes.

Ivone Santana

Ivone Santana é consultora e fundadora do Instituto Modo Parités, negócio social 2,5 que prepara gestores de empresas e instituições para estruturar programas de inclusão social, diversidade e sustentabilidade (www.modoparites.com.br). É membro diretora da Rede Empresarial de Inclusão Social, consultora da Rede UniEthos, membro da secretaria da Câmara Paulista de Inclusão. Tem formação em Jornalismo, Psicoterapia, Filosofia e Gestão de Negócios.

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