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Ser deficiente não é o que me define

A partir dos horizontes ampliados e livres dos preconceitos que tinha, meus caminhos começaram a se abrir novamente para trazer de volta a pessoa que sou na essência

06.11.2019 - Por Diversidade

Há 13 anos, quando tinha 23, eu, assim como a maioria das pessoas, era atraída por aquilo ou aqueles que se pareciam comigo de alguma forma. Atração por semelhança. É um processo humano primitivo e também é uma das razões pelas quais o meu sentido de existência era bem mais limitado naquela época.

Ter crescido em um ambiente mais diverso e inclusivo certamente teria me ajudado a lidar comigo mesma quando eu me tornei diferente do modelo de pessoa que eu estava acostumada a admirar. Fiquei tetraplégica em um “acidente” de carro.

O “acidente”, na verdade, foi um crime. Um risco assumido por um cidadão que decidiu beber e dirigir, mas isso é apenas um parêntese na história para te lembrar que desgraça acontece dentro de casa também. Alerta sempre!

Meu pai sempre dizia que eu tinha excesso de otimismo, ele falava isso pra não dizer que eu era bem irresponsável. Segundo ele, sempre me comportei como se tudo na minha vida fosse dar certo no final. Sempre! Assim, eu podia seguir meus instintos e vontades, sem esforço, porque tudo sempre dava certo, não é mesmo?! Era isso que eu achava, mas um dia não deu. Na verdade, deu muito errado.

Quando perdi todas as funções do corpo e não era mais capaz de fazer nada daquilo que sabia fazer, nos padrões que conhecia a vida inteira, tudo acabou pra mim. Acabou porque as possibilidades que eu conhecia eram muito restritas agora. Passei também pelo processo de descoberta de algo que, até então, não tinha percebido: descobri o quão preconceituosa eu era. O meu preconceito me causou muita dor, prejudicou a minha reabilitação, diminuiu meus horizontes e me fez até perder dinheiro.

Ser deficiente não é o que me define

A duras penas me livrei do preconceito. Aí eu aprendi que tudo é possível. A gente não tem a mínima ideia da nossa capacidade de se reinventar. Eu entendi que ia muito além das minhas contrações musculares, assim como entendi que minha cadeira de rodas é só mais um acessório que compõe o meu look diário. E hoje eu consigo olhar pra isso e conviver bem com quem sou.

A partir desses horizontes ampliados e livres dos preconceitos que tinha, meus caminhos começaram a se abrir novamente para trazer de volta a pessoa que sou na essência. Fui a primeira tetraplégica a se graduar em medicina, me tornei especialista em medicina do trabalho e passei a apoiar freneticamente a inclusão das pessoas com deficiência no mercado.

Nesse período de experiência de vida como PcD (Pessoa Com Deficiência), percebi que muita gente associa o trabalhador deficiente com a palavra ineficiente, ou seja, de baixa performance, muitas vezes até como apenas um problema para o empregador. Nunca entendi o que uma coisa tem a ver com a outra. Essa é uma relação que, absolutamente, não existe!

A mudança do nosso modelo mental é urgentemente necessária e, ainda que a sociedade brasileira esteja se tornando mais inclusiva nos últimos anos, a segregação, a intolerância e a falta de políticas públicas afirmativas para qualificar e dar visibilidade aos profissionais com deficiência ainda fazem com que menos de 450.000 das 24 milhões de pessoas com deficiência estejam no mercado formal.

Todo mundo perde com essa realidade. Pessoas com e sem deficiência. Os prejuízos de não se promover a inclusão são inúmeros: com o desemprego vem a pobreza, seguida da marginalização e do aumento da violência. Além do custo para o contribuinte ao financiar pessoas com deficiência - através de programas sociais -, que são aptas para o trabalho, mas que estão desempregadas.

Assim como a deficiência não tem relação com a performance no trabalho, ela também não tem qualquer relação com o nível de caráter das pessoas ou qualquer outra questão. Mais uma vez: a deficiência é só mais uma característica, dentre tantas de um indivíduo tão diverso como somos todos. E para começar a pensar diferente é preciso tirar a ideia de inclusão do papel e praticar de fato. A medida em que os casos de sucesso vão aumentando dentro das empresas, no mercado de consumo, na política etc, o olhar da sociedade em geral também vai acompanhando essa evolução. E o benefício é para todos!

Daniela Bortman

Daniela Bortman é médica, especialista em Medicina do Trabalho. É Líder de Saúde Ocupacional na Bayer do Brasil. Preside a Comissão Técnica de Inclusão e Diversidade da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), onde é responsável por tornar a classe médica e seus parceiros mais inclusiva. Também é consultora de Inclusão e Diversidade no mercado de trabalho, palestrante e ainda é co-autora de dois livros publicados e que hoje são tidos como referências sobre o tema. Seu papel também é mostrar para todas as mulheres que elas podem ser aquilo que elas quiserem.