Home > Agro Agora > OGMs no combate à desnutrição
Agro Agora

OGMs no combate à desnutrição

A desnutrição e a fome são problemas graves no mundo e precisam ser enfrentados com seriedade, para trazer mais saúde e dignidade às pessoas.

13.08.2020 - Por Mundo Agro

Mas como a biotecnologia e a agricultura moderna podem ajudar nessa questão?

É assustador saber que, das quase 7,8 bilhões de pessoas que existem no mundo, aproximadamente 800 milhões delas sofrem de fome. Em outras palavras, isso significa que aproximadamente uma em cada dez pessoas não possui comida suficiente em seu lar. Se considerarmos todas as pessoas que sofrem de algum grau de desnutrição, esse número sobe para quase 2 bilhões, ou seja, 1/4 da população mundial não tem uma dieta capaz de prover todos os nutrientes de que necessitam. Sem dúvida, esse é um problema enorme e que merece a atenção de todos, sejam cidadãos, líderes de governo, representantes de órgãos governamentais, do comércio, da indústria, cientistas, agricultores e tantos outros.

Aumentar a produção de alimentos no mundo e melhorar sua distribuição são, talvez, os dois pontos centrais e mais discutidos para lidar com a questão. Contudo, atentar para a qualidade dos alimentos e o seu valor nutricional também é um ponto fundamental para alcançar vitórias nessa batalha. Dessa forma, vamos ver alguns exemplos de como a agricultura moderna, com o uso de novas tecnologias, vem atuando para melhorar o valor nutricional dos alimentos que comemos.

Historicamente, diversos governos já criaram campanhas de suplementação nutricional, na tentativa de complementar a carência dos nutrientes que não são obtidos pela dieta tradicional. Entretanto, para garantir um acesso abrangente e universal à suplementação, especialmente nos países subdesenvolvidos, onde a desnutrição prevalece, nada melhor do que suplementar os alimentos básicos, aos quais mesmo as camadas sociais mais baixas e carentes têm acesso. Nesse contexto, a biofortificação de culturas agrícolas, por meio de técnicas biotecnológicas de engenharia genética e inserção de genes específicos, que levam a um enriquecimento nutricional dos alimentos, pode ser uma grande aliada no combate à desnutrição. Entretanto, vejamos alguns exemplos práticos.

O primeiro alimento/organismo geneticamente modificado (OGM) biofortificado criado foi o chamado “arroz dourado”, enriquecido com beta-caroteno, pigmento amarelo-alaranjado, que dá cor às cenouras e é precursor da vitamina A. Esse arroz foi desenvolvido a partir da inserção de um gene de bactéria e outro de milho em seu DNA, conferindo a ele uma quantidade elevada de beta-caroteno em sua composição. Sabe-se que a falta de beta-caroteno na dieta leva a sérios problemas no sistema imunológico e comprometimento da visão, levando, todos os anos, quase 500 mil pessoas à cegueira e 2 milhões à morte, em sua maioria crianças. Dessa forma, o “arroz dourado” tem potencial para ajudar nessa luta, uma vez que apenas 150 g diários desse arroz já fornecem a quantidade de vitamina A necessária para manter uma criança saudável.

Assim como o “arroz dourado”, já aprovado em alguns países para consumo, mas aguardando sua aprovação em países subdesenvolvidos, onde pode ajudar as pessoas a vencer a desnutrição, outros alimentos biofortificados também estão aguardando aprovação ou estão em fase de desenvolvimento. No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está desenvolvendo variedades de alface e feijão com maior teor de ácido fólico, para combater a anencefalia de bebês, associada com a deficiência desse micronutriente. Vale destacar que, segundo a OMS, o Brasil é o quarto maior país em número de casos de anencefalia. Contudo, a coisa não para por aí. Além desses exemplos, bananas, batatas, soja, trigo e outros alimentos biofortificados também estão sendo desenvolvidos pelo mundo, sendo enriquecidos com beta-caroteno, ácido fólico, ferro, vitamina C e outros nutrientes importantes no enfrentamento dos diversos problemas associados à carência nutricional. Portanto, é importante ficarmos atentos às novidades e acompanhar as notícias sobre os novos alimentos biofortificados em desenvolvimento, suas aprovações pelo mundo e os resultados práticos que estes podem trazer para a sociedade.

REFERÊNCIAS

Gabriel Levin é biólogo e doutorando em Biotecnologia pela Universidade de São Paulo.

Publicado em Agro Agora