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O veículo do futuro

Nada de carros elétricos ou transporte aéreo, o veículo do futuro pode ser muito mais simples do que imaginamos

14.11.2017 - Por Diversidade

Se um dia você tentar atravessar o centro de Amsterdã em um carro, vai se deparar com uma dura realidade: a cidade pertence aos ciclistas. Eles comportam-se como um enxame, apressando-se pelas ruas, dominando seu espaço, tornando os motoristas seres impotentes, como se corressem uma maratona vestidos em armaduras espaçosas. Há muitos anos, a cidade foi moldada para acomodá-los, com uma elaborada rede de ciclovias e pistas, tão segura e confortável que mesmo crianças e idosos usam bicicletas como meio de transporte. Na verdade, essa não é a realidade apenas de Amsterdã, mas de todas as cidades holandesas.

Apesar dos holandeses tentarem nos convencer de que isso sempre ocorreu, não é verdade. Nas décadas de 50 e 60, os ciclistas estavam sendo expulsos das cidades pelo aumento no número de carros. Foi nessa época do pós-guerra, com o reaquecimento da economia, que mais e mais pessoas puderam comprar seus carros, considerados a forma de transporte do futuro. Bairros inteiros de Amsterdã foram destruídos, abrindo caminho para o tráfego motorizado. O uso de bicicletas diminuía 6% a cada ano e a ideia geral era que as bicicletas eventualmente desapareceriam por completo.

O auge desse processo foi no ano de 1971. Com o tráfego cada vez mais congestionado, o número de acidentes aumentou e 3.300 pessoas morreram, das quais 400 eram crianças. As ruas já não pertenciam às pessoas e sim aos carros. Os habitantes mostraram-se indignados, organizaram-se em grupos, que se tornaram cada vez mais ativos, fazendo protestos, fechando ruas para impedir a passagem dos carros e criando áreas seguras para crianças e ciclistas. Os movimentos sociais, associados ao apoio do governo, fizeram com que as ruas se tornassem mais seguras para as pessoas e incentivaram a volta das bicicletas como meio de transporte.

Não demorou muito para que o governo percebesse outras vantagens nessa mudança. Quando a Arábia Saudita e outros exportadores árabes de petróleo impuseram um embargo aos EUA, Grã-Bretanha, Canadá, Japão e Países Baixos, por apoiarem Israel na guerra de Yom Kippur, o preço do barril de petróleo quadruplicou, levando à crise do petróleo de 1973. O estabelecimento de uma série de domingos sem carros, pelo governo, permitiu às crianças que brincassem em ruas e estradas desertas, lembrando as pessoas de como era a vida antes da hegemonia do carro. Para o governo, um novo estilo de vida resultaria em uma grande economia de energia e, consequentemente, de dinheiro. A partir da década de 80, mudanças drásticas começaram a ocorrer, ciclovias (vermelhas) invadiram as cidades e os ciclistas passaram a ter preferência no trânsito.

A revolução ciclista holandesa de quarenta anos atrás é tendência na rodinha de países desenvolvidos. O que temos visto, quando falamos de transporte é uma substituição dos carros a diesel e gasolina por carros movidos a biocombustíveis e carros elétricos. O governo inglês quer banir os carros a combustíveis fósseis até 2040, os alemães são ainda mais radicais colocando a data capital para esse tipo de veículo em 2030. No entanto, ao concentrar o debate na mudança gasolina para eletricidade, estamos apenas mudando o tipo de caixa de metal que as pessoas vão dirigir pelas nossas cidades. É indiscutível, que a longo prazo, isso resultará na melhorara da qualidade do ar, no entanto, não contribuirá para resolver o congestionamento em nossas ruas.

Parece que mais uma vez estamos perdendo a oportunidade de debater seriamente como nos movimentamos e vivemos em nossas cidades. Em um modelo hibrido de transporte, usaríamos ônibus e trens para longas distâncias e bicicletas, patins e skates para distâncias mais curtas. A poluição do ar diminuiria, o exercício seria bom para a saúde das pessoas e a economia seria favorecida (apenas no Reino Unido são perdidos 11 bilhões de dólares, por ano, em congestionamentos). As cidades do mundo que foram nessa direção, como Copenhague, Amsterdã, Estrasburgo e Utrecht, tendem a possuir uma população mais competitiva e bem-sucedida, além de serem reconhecidas como alguns dos melhores lugares para se viver. Muitas outras grandes cidades, como Nova York, Oslo, Sevilha, Barcelona e Paris, veem as bicicletas como vitais para a melhoria da qualidade de vida de seus residentes.

Talvez o carro não seja o meio de transporte do futuro, no fim das contas.

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