Home > Sexualidade > O que você (des)aprende com o pornô
Sexualidade

O que você (des)aprende com o pornô

Como a indústria do “entretenimento adulto” cria expectativas irreais sobre sexo que podem ser prejudiciais para relacionamentos de verdade

09.02.2018 - Por Nathalia Ziemkiewicz

É sacanagem que, por falta de conversas honestas em casa e na escola, a pornografia nos “ensine” sobre sexo desde muito cedo. E ela é tão capacitada para essa função quanto uma professora de português que escreve ~TEZÃO. Segundo pesquisas recentes, a geração pós-internet tem seu primeiro contato com cenas explícitas aos sete anos de idade - quando sequer aprendeu como os bebês são gerados.

pornô

Mas, na adolescência, os vídeos pornôs matam a curiosidade, “aliviam” a tensão hormonal dentro dos banheiros trancados e nos enchem de (falsas) referências. Aí começa o problema que nos persegue também na vida adulta. Porque os corpos e a performance encenada não refletem a realidade. Nada contra se divertir com esses filminhos, desde que você consiga - assim como numa obra de ficção científica - enxergar os ~efeitos especiais. Aqui vão alguns deles.

- A régua e o bisturi

Atores e atrizes passam por um processo de seleção. São aprovados aqueles que atendem a um padrão de ~beleza imposto pela indústria pornográfica. Pênis comuns podem ser retos ou tortinhos, monocromáticos ou bicolores, circuncisados ou não... Enquanto os atores ostentam membros eretos entre 20 cm e 25 cm de comprimento, com grossura equiparada ao tronco de um jatobá, a média mundial é de 13,12 cm de tamanho e 11,66 cm de circunferência (quando está excitado).

Vulvas, do mesmo jeito que narizes, têm características muito variadas. A maioria delas não é rosinha e simétrica. Podem ser mais gordinhas, com clitóris protuberante, pequenos lábios que se sobrepõem aos grandes lábios, arroxeadas... Mas a nossa neura é tanta que cirurgias íntimas e tratamentos estéticos faturam horrores. Ah, e tem a depilação. Quantas atrizes exibem fios encaracolados e sem fronteiras?

- O cronômetro

Nenhum ator pornô se exibe em frente às câmeras com o pênis em ~estado natural. As cenas já começam com a ereção porque eles tomam remédios e se masturbam nos bastidores minutos antes. A resposta “normal” do corpo ao tesão não costuma acontecer em segundos. As atrizes também passam lubrificantes ou saliva pra parecerem “prontas” ao menor estímulo, como se mulheres “de verdade” não precisassem de preliminares pra entrar no clima (fisiologicamente falando).

- O espelho

Tudo é exibição pros outros curtirem, não pra quem está transando de fato. Sexo bom não precisa de mil posições sexuais e nível hard do Kama Sutra. Não se sinta inferior por preferir o estilo “papai-mamãe”. Atrizes fazem cara e bocas, mas mulheres “reais” podem estar muito excitadas com mais discrição. Nem todas curtem ser chamadas de “piranhas” ou receber tapas, sexo anal está longe de ser unanimidade ou simples de praticar... E quedê camisinha, brochada, ejaculação precoce?

- A britadeira

O canal vaginal têm, em média, 8 cm de profundidade. Quanto mais fundo, menos sensibilidade. Não à toa, apenas 30% das mulheres dizem chegar ao orgasmo com penetração. Mas os vídeos de sacanagem focam totalmente no vaivém frenético do pênis na vagina - como se o que dá prazer incontrolável a eles “obviamente” desse a elas. O clitóris nunca é protagonista (poucas vezes recebe sexo oral), embora seja a maior fonte de delírio feminino.

- O grito e o jato

Atrizes “gozam” em alto e bom som, invariável e repetidamente numa única transa. Algumas, aliás, “ejaculam”. Um fenômeno controverso entre especialistas, reportado por menos de 5% das mulheres “reais”. Na maioria dos casos, as atrizes bebem bastante água... Enquanto isso, uma pesquisa do Prosex/USP revelou que 55% das brasileiras têm dificuldade de chegar ao orgasmo. E, na prática, ele dura cerca de 10 segundos. Atores ejaculam litros (graças à truques e edições), mas homens “comuns” liberam em média uma colher de sopa. Além disso, ao contrário da ficção, precisam de um tempo entre uma ejaculação e outra - SE conseguirem manter a ereção.