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O HIV não está restrito às pessoas LGBTI+

Precisamos rever o preconceito com a nossa própria existência. E falo por experiência própria

12.03.2019 - Por Diversidade

Há dois anos, durante um carnaval, conheci um rapaz e lembro de termos ido para casa juntos naquele dia. Assim, casualmente, viver a vida como duas pessoas que se curtiram. Como disse, lembro de termos ido para casa juntos, mas será que usamos camisinha? Será que eu havia me cuidado como deveria?

Essa dúvida tomou conta de mim de uma forma que eu jamais poderia imaginar. Minha cabeça se encheu de suposições e arrependimento. Por que eu escolhi não usar preservativo? Será que eu me infectei por HIV?

Eu sabia que não faria algo assim, que não me colocaria em risco por alguém que havia acabado de conhecer, ainda que na mais intensa das relações. Só que a preocupação era tanta que, naquele momento, decidi acreditar nisso por um único motivo: culpa.

Foi assim que uma noite de diversão acabou se tornando o início de um grande pesadelo. E também foi assim que tive uma experiência de vida que me obrigou a repensar a forma como me via e o impacto que o reflexo de uma sociedade preconceituosa tinha sobre isso.

Sou um homem que se identifica com o gênero masculino, gay e poder assumir minha opção sexual ao mundo, pra mim, está relacionado ao amor na sua forma mais pura, ao orgulho e à coragem de ser quem eu sou. No entanto, ao me abrir com a minha família, ouvi diversas vezes que por “escolher o caminho do pecado” eu seria castigado com uma doença como a AIDS. E esse não é um pensamento exclusivo deles, já que boa parte do contexto social em que vivemos, infelizmente, ainda vive no passado e reforça estereótipos de promiscuidade, drogas e doenças.

Eu sabia da existência da PEP (Profilaxia Pós-Exposição), uma medida preventiva de urgência que pode ser solicitada no SUS, em até 72h, após uma relação desprotegida. Mas, apesar de ter acesso à informação, senti vergonha e achei que deveria viver com as consequências das minhas escolhas. Novamente, a culpa e o preconceito alheio tomaram conta de mim. Você percebe que minha preocupação era ligada exclusivamente ao vírus da AIDS? Eu não cismei com qualquer outra IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis).

Após meses de aflição, tive uma reação imunológica generalizada que envolveu sintomas como diarreia, estomatite, úlceras gastrointestinais e muita perda de peso. Não deu outra. Imaginei que, assim como a minha família me fez acreditar, o meu maior medo tinha se tornado realidade.

Finalmente, tomei a decisão de ir ao médico, mas em alguns deles encontrei mais preconceito e discriminação ainda. Ao analisarem o meu quadro, sem qualquer teste laboratorial, a primeira - e em alguns casos a única – suspeita era AIDS. A perda de peso em pouquíssimo tempo me enquadrava no imaginário coletivo da doença nos anos 90, retrato que não condiz mais com a realidade atual de quem vive com o vírus.

Após muitas trocas de médicos, encontrei um tratamento adequado e ético. Descobri que eu não vivia com HIV, mas sim com uma questão de intolerâncias alimentares. A partir daí, os sintomas físicos relacionados ao estômago e intestino puderam ser devidamente medicados.

O que restou em mim? Uma urgência em tratar o meu pânico associado ao preconceito. Iniciei um tratamento psicológico com uma profissional incrível, que me ajudou a superar os sintomas de ansiedade mais urgentes. E durante estes 6 meses, em que continuei tendo medo do HIV, me informei sobre o estigma de quem vive com ele, o que é, que não há cura, quais as estratégias de prevenção que vão além do preservativo e que sim, o tratamento pode ser bastante efetivo quando a condição é descoberta no início.

Compreendi que, se por acaso, eu tivesse me infectado, eu poderia encontrar uma nova forma de viver com isso. E viver com dignidade. Aprendi que cuidar de mim também é uma forma de cuidar dos meus parceiros, sejam eles casuais ou não. Afinal, a forma positiva como me vejo enquanto homem gay, precisa ser maior do que qualquer julgamento ultrapassado.

Herbet Castro

Herbet Castro é ator e youtuber, licenciado em Artes Visuais e comunicador em Multimeios pela PUC-SP. Em seu trabalho, com humor, aborda temas como sexualidade, masculinidade e estigma do HIV.

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Tags: HIV, sexo, AIDS