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Nosso papel de mãe na construção de um mundo plural

Acredito que é importante não padronizarmos conceitualmente esse “ser mãe”, como costumamos ver por aí. Mas ampliar o repertório social dos filhos é importante para todo mundo

09.05.2019 - Por Diversidade

Tanto quanto a linguagem ou a escrita, a autoestima é um aprendizado. Saberes que começam a ser desenvolvidos na infância. Por isso, sentimentos e comportamentos relacionados à autoestima como o amor próprio e o autocuidado devem ser ensinados e aprendidos desde cedo. É na infância que construímos nossas principais referências do que é belo, saudável e aceitável.

Em tempos de tantas informações compartilhadas sobre maternidade, defendo que a maternância é uma experiência completamente única. Ainda que tenhamos vivências que se assemelham às de outras mães, muitas sensações, reflexões e sentimentos são absolutamente individuais, pois conversam com subjetividades que são muito pessoais.

Acredito que é importante não padronizarmos conceitualmente esse “ser mãe”, como costumamos ver por aí. “Faça isso!”, “faça aquilo” não funciona da mesma forma em diferentes contextos. Eu, mulher negra, filha de mãe ativista e mãe de uma bela menina preta posso dizer a você, com certeza, que há coisas que dizem respeito apenas à maternidade preta.

Considerando que vivemos em um país em que o racismo nos estrutura socialmente, ou seja, determina e define uma série de comportamentos individuais, coletivos e também institucionais, crianças negras merecem atenção e cuidados extras. Pois são estas crianças que crescem em uma sociedade que ainda caminha lentamente no sentido de entendê-las como belas e potentes. São estas crianças que buscam com mais dificuldade referências em que possam se ver, se enxergar, nas mais diversas representações sociais. São estas crianças que crescem com poucas referências nas TVs, nas universidades, nos consultórios médicos, escritórios em grandes corporações etc.

Eu acredito que uma das coisas mais importantes seja trabalhar, desde cedo, a construção do “olhar” desta criança, no sentido de que ela olhe no espelho e se veja grande, potente, possível. Que ela consiga deitar a cabeça no travesseiro e sonhar, imaginar todo e qualquer mundo como possível pra ela.

Mas hoje, como comunicadora que pretende estabelecer diálogos afetivos entre pessoas diferentes, penso que essa responsabilidade não é só minha. Há um provérbio africano que diz que “é preciso toda uma aldeia para criar uma criança” e tenho trazido isso para minha rotina de todas as formas possíveis.

Por exemplo, já tem um bom tempo que abri mão da ideia de que nós, mulheres, temos superpoderes. Abdico a ideia de que sou ou devo ser uma “supermãe”, uma “supermulher”. Entendo e aceito que não preciso e nem tenho que fazer tudo sozinha. Divido responsabilidades com meu companheiro, meus pais, meus amigos e as pessoas que trabalham comigo. Somos uma grande rede que se apoia no dia a dia. Não me sinto obrigada a fazer tudo, meu companheiro também não.

Também já abri mão de vivenciar meu ativismo como se as questões raciais fossem apenas uma “coisa de preto”. Não são e nem podem ser. Nós, negros, não criamos o racismo e, portanto, não podemos e nem vamos, sozinhos, lidar com este problema social. Praticamente, no que diz respeito à criação das crianças, vou dar um exemplo bem prático.

Não basta apenas que eu compre bonecas pretas para a minha filha. Isso é fundamental, claro. Mas, as pessoas brancas, compram bonecas pretas para seus filhos brancos? Mães e pais brancos que vivem em ambientes que estruturalmente tem marginalizado crianças negras fazem o que para que estas crianças convivam com crianças diferentes das suas e entendam que estas crianças existem da mesma forma bela e potente que elas mesmas?

Mães e pais brancos estão tão preocupados como eu que as coisas que minha filha assiste tenham diversidade e pluralidade de representações? Será? Se não estão, precisam estar. Você, que está lendo este texto agora, é uma pessoa branca ou preta? Como você faz para inserir a diversidade na criação dos seus filhos? Já pararam pra pensar sobre isso?

Deixo com vocês esta reflexão e também um pedido. Vamos juntos?

Eu estou empenhada em dar referências positivas de diversidade para a minha filha. Mas, e você? O que anda fazendo para mostrar às suas crianças que o mundo é plural?

Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é empresária de moda no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira. É também criadora de conteúdo em suas redes próprias e também para grandes marcas. É a primeira embaixadora de dreads de uma marca de produtos para cabelo. No segundo semestre estreia como apresentadora do GNT no programa Se Essa Roupa Fosse Minha. Em suas redes, Xongani propõe conversas gostosinhas pra falar com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes e urgentes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todas as pessoas, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

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