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Mulheres na ciência

A baixa representatividade das mulheres no meio científico é um assunto de longa data. Apesar de ter melhorado muito, a questão está longe de ser resolvida

09.02.2018 - Por Diversidade

Em 1965, Alice S. Rossi publicou, na revista Science, um artigo intitulado Women in Science: why so few? (Mulheres na ciência: por que tão poucas? ). Neste artigo, a autora debateu a razão para haver poucas mulheres na ciência. Em 1960, a maioria das mulheres cientistas não era casada ou não possuía filhos. Ainda assim, muitas mulheres após a conclusão de seus estudos, não seguiam como cientistas, indo trabalhar em empregos fora da vida acadêmica. O que gerava a impressão que a carreira científica e a construção de família não eram atividades compatíveis, refletindo valores da sociedade.

Mulheres

Os estímulos que meninos e meninas recebem ao longo da vida podem influenciar na escolha das carreiras que serão seguidas no futuro. Estes estímulos ocorrem no âmbito familiar, escolar e cultural, nas atividades que são destinadas a cada gênero. Por exemplo, geralmente bonecas e utensílios domésticos são considerados brinquedos de meninas, atividades que estimulam a passividade. Por sua vez, meninos ganham jogos, fazem atividades que desenvolvem raciocínio lógico. Até hoje ainda podemos encontrar em livros didáticos, principalmente em países mais pobres, imagens associando mulheres a funções domésticas, enquanto homens trabalham em escritórios e hospitais.

Infelizmente, os desafios para mulheres cientistas não ficam restritos a infância. No Brasil, a ciência é realizada basicamente dentro das Universidades por alunos de pós-graduação sob orientação de professores/pesquisadores. Os alunos recebem bolsas para realizarem suas pesquisas, frequentemente com dedicação exclusiva. As bolsas podem ser de mestrado com duração média de 2 anos, de doutorado (4 anos) ou de pós-doc (1 a 5 anos). Assim, sem atrasos e lacunas temporais entre um nível e outro, um cientista pode ficar na pós-graduação por no mínimo sete anos após terminar a graduação. Durante este período a vida pessoal das pessoas também se desenvolve, ao menos é o esperado!! E mulheres podem ter filhos! No entanto, a Pós-graduação não se enquadra no regime CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e alguns benefícios, como licença maternidade, são conquistas recentes no meio acadêmico.

Apenas a partir 2006 o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) passou a oferecer licença de 90 dias para alunas de pós-graduação que tivessem filhos durante o curso. A Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (CAPES) passou a oferecer este benefício a suas bolsistas apenas em 2010 (Portaria 220). Pesquisadoras passaram a ter direito a uma licença remunerada de quatro meses, desde que o parto ocorra durante a vigência da bolsa e a um tempo maior para a conclusão de seus trabalhos. Até 2006, mulheres cientistas não recebiam licença maternidade, suas bolsas eram suspensas após o parto (geralmente única fonte de renda) e ainda acabavam ultrapassando o tempo limite dos programas de pós-graduação para terminarem seus trabalhos. Em um meio tão competitivo, a ausência de auxílio e apoio levava a mulheres terem desvantagem em relação às mulheres sem filhos e aos homens, independente destes serem pais ou não.

Embora o número de mulheres na ciência tenha aumentado, ainda há desvantagem numérica. Mulheres são maioria no ensino superior, mas a distribuição entre cursos não é similar. Por exemplo, cursos de ciências exatas, como engenharias, economia e computação, são cursos considerados tipicamente masculinos. E mesmo em áreas onde mulheres são maioria, como biológicas, é comum encontrar mais alunas que alunos na graduação e pós-graduação, mas o padrão não se repete no corpo docente das Universidades. Ações afirmativas dentro do ambiente familiar e escolar são fundamentais para o desenvolvimento da criatividade e curiosidade em nossas meninas, características que são essenciais para cientistas!! Ainda, ações dentro do meio acadêmico, como criação de creches, espaços para aleitamento materno e benefícios para mulheres nas Universidades podem alterar essa realidade. Mulheres são tão capazes de serem cientistas quanto os homens e a busca por um ambiente igualitário só têm a somar para toda a sociedade! Não acredita? Dá só uma olhada nestes exemplos de mulheres incríveis na ciência:

Ada Lovelace (1815 -1852) - Sua pesquisa sobre motores analíticos, garantiu à Ada o título de primeira programadora do mundo!

Marie Curie (1867 – 1934) - Pesquisava sobre radioatividade, descobriu e isolou os isótopos dos elementos químicos polônio e rádio. Primeira mulher a ganhar um prêmio Nobel (em Química, em 1903) e a primeira pessoa a ganhar duas vezes o prêmio (em Física, em 1911).

Florence Sabin (1871-1953) - Além de ser uma militante pelo direito das mulheres, estudou os sistemas linfático e imunológico do corpo humano, sendo a primeira mulher a fazer parte da Academia Nacional de Ciência dos EUA.

Nise da Silveira (1905- 1999): Psiquiatra brasileira que revolucionou o tratamento psiquiátrico, lutando contra terapias agressivas como choque, confinamento e lobotomia.

Gertrude Bell Elion (1918 -1999): Desenvolveu remédios para tratar sintomas da Aids, leucemia e herpes. Prêmio Nobel em Medicina, em 1988.

Johanna Dobereiner (1924-2000): Agrônoma brasileira especializada em biologia do solo. Além de viabilizar o desenvolvimento do Proalcool, seus estudos a respeito da fixação biológica do nitrogênio lhe garantiu uma indicação ao Nobel de Química em 1997.

Janaina Rosa Cortinóz

Sobre o autor: Mateira de facão na mão e botina nos pés, Janaina Rosa Cortinóz é uma bióloga formada na UNESP de São José do Rio Preto, com mestrado e doutorado em Ecologia pela UNICAMP. Apaixonada não só por belas paisagens, resolveu desvendar a natureza pelo único caminho que encontrou ser satisfatório: a ciência.

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