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Mosquito e desmatamento

O que o surto atual de febre amarela tem a ver com degradação ambiental?

02.03.2017 - Por Paulo Jubilut

O Brasil está vivendo o maior surto de febre amarela da sua história. Minas Gerais concentra a maioria dos casos, porém a doença já se espalhou para vários outros estados. Mas o que será que explica este surto de febre amarela em pleno 2017? Com o avanço da ciência não deveríamos ouvir falar cada vez menos deste tipo de doença? Para alguns especialistas a degradação ambiental é a raiz deste problema!

Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Minas Gerais, o “epicentro” do surto, é um dos estados que mais desmatou a Mata Atlântica nos últimos anos. “Mas o que isso tem a ver, Jubilut?” Para entender bem a relação da doença com o desmatamento temos que entender primeiro o que é a febre amarela e como se dá sua transmissão.

Existem dois tipos de febre amarela: a silvestre e a urbana. Em ambos os tipos, o vírus transmitido é o mesmo e o que as difere são os vetores (transmissores) e os hospedeiros. A febre amarela urbana tem como vetor o nosso “velho conhecido” Aedes aegypti e como hospedeiro o homem. Já a forma silvestre – que é a que temos no Brasil atualmente – tem como vetores os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes (no Brasil) e Aedes (na África) e como principais hospedeiros os macacos, especialmente os bugios.

Ilustração mostrando como funcionam os ciclos de transmissão da febre amarela. Imagem: Biologia Total.

A febre amarela silvestre está circulando permanentemente no interior das matas. Ela nunca desapareceu do Brasil, apenas estava sendo mantida distante de nós. Os casos humanos ocorrem quando o homem adentra uma área silvestre e é picado por um mosquito contaminado... e é aí que mora o problema! O desmatamento aproxima o homem das áreas silvestres, tornando-o mais suscetível à doença.

Outro problema é que o desmatamento causa perda de biodiversidade. A diminuição no número de predadores, por exemplo, pode resultar no aumento da população de mosquitos! Já a diminuição no número de animais que servem como alimento para o mosquito – como os macacos – faz com que os mosquitos precisem buscar outra fonte de alimento, no caso, os seres humanos. Além disso, mudanças bruscas no ambiente podem afetar a saúde dos animais, deixando-os mais vulneráveis.

Considerando a localização das cidades onde as primeiras pessoas apresentaram os sintomas da doença, alguns especialistas desconfiam que o desastre de Mariana possa ter relação com o surto atual. Entretanto, ainda não há dados suficientes para confirmar esta hipótese.

Como estão ocorrendo muitos casos de ataques e agressões a macacos por conta do surto, é importante ressaltar que eles não são os vilões, não sendo responsáveis pela transmissão da febre amarela. Pelo contrário, eles são nossos aliados no combate à doença. Eles funcionam como indicadores, o que os especialistas chamam de sentinelas. Isto é, quando eles começam a aparecer mortos, isto indica que podem estar ocorrendo casos da doença na região, o que permite iniciar campanhas preventivas e de vacinação antes que ela chegue aos humanos. Além disso – como já dito acima – a redução na população dos macacos faz com que os mosquitos busquem no homem uma fonte alternativa de alimento. Então, se as populações de macacos diminuírem, o problema só piora.

Segundo especialistas, o desmatamento da Mata Atlântica tem tudo a ver com o surto atual de febre amarela.

É claro que outros fatores podem estar envolvidos no atual surto, como o descuido com a vacinação – a única maneira de evitar a doença –, seja porque as vacinas não chegam a determinadas áreas, porque não são conservadas da forma adequada, porque as pessoas não estão tomando as doses necessárias ou porque estão simplesmente optando por não se vacinar. Mas a degradação ambiental certamente tem um papel importante nisso tudo! Isso ressalta os impactos da ação humana sobre a biodiversidade e nos mostra como eles podem respingar nos próprios seres humanos, impactando também a saúde pública.

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