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Meu corpo preto existindo e superando desafios

Lutando contra o racismo e homofobia, encontrei força e aceitação no mundo do brechó

18.04.2019 - Por Diversidade

Nascer negro no Brasil é algo que estrutura sua vida totalmente. A escravidão nunca desapareceu, só foram aperfeiçoadas suas técnicas para uma tecnologia estrutural racista. Explico: hoje temos casas, trabalhos, experiências, etc., mas os salários, condições e acessos ainda revelam uma diferença drástica entre brancos e negros.

Eu, um jovem negro, morei até meus 20 anos em Campinas, no interior de SP. Na época da escola sofria muito racismo e homofobia, por ser também uma criança considerada afeminada. Passei a estudar balé, e comecei a ter acesso a arte, história, contos de fadas e sonhos, o que aflorou muito meus desejos internos de querer ser, pertencer e existir.

O balé proporciona tudo isso, mas diz respeito a uma cultura branca, europeia, de reinos. A ideia clássica gira em torno de chegar próximo a essa perfeição, ou seja, ser magro, se enquadrar no padrão branco, de linhas, formas e movimentos considerados perfeitos. Mas que são muito diferentes dos nossos próprios corpos, perfeitos cada um à sua maneira. Acabei saindo do balé e, depois de uma experiência frustrada em um salão de beleza, decidi me mudar para São Paulo.

Nas cidades do interior as pessoas tendem a ser mais conservadoras, e por mais que eu estivesse em espaço de arte, os padrões ainda perduravam. Já na São Paulo que eu habitava, as pessoas me olhavam e tratavam de maneiras diferentes. As perspectivas foram mudando gradativamente a partir de novos acessos, até o momento que descobri as roupas de brechó. Aproveitando os preços baratos e a variedade, decidi criar a plataforma Brechó Replay, querendo criar um movimento diferente do que eu via no mercado de moda, ressaltando os corpos negros e naturais nas fotos.

O projeto, que hoje evoluiu para um coletivo de arte, trata das feridas e das coisas impostas nos nossos corpos. O Replay veio para reiniciar as possibilidades, criando espaço para novas narrativas, dando liberdade para poder falar o que pensamos, nossas necessidades, vontades e o que gostaríamos de ser.

Hoje ainda me sinto um corpo com várias fragilidades, mas a partir do momento que comecei a me comunicar e a realizar meus sonhos, me senti potente. E quando a gente passa a compartilhar isso pela internet, acabamos trazendo um vigor e potência também para outras pessoas.

Eduardo Costa

Eduardo Costa, @anjoadolescente, 30 anos, paulista, diretor e fundador do Brechó Replay que atua em segmentos como performance, moda, publicidade com foco em dar protagonismos para grupos dissidentes.

Publicado em Plural