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Plural

Envelhecer é simplesmente envelhecer

Ou por que os 50 anos são somente os novos 50 anos mesmo. Quem disse que o passar dos anos só traz problemas? Eita ideia velha!

24.06.2019 - Por Diversidade

Às vezes — muitas vezes, para falar a verdade —, eu me sinto sem tribo. Estou com 54 anos. Quando piscar os olhos, sei, 55. Não tenho nenhum problema em declarar a idade, mas tenho alguma dificuldade com as reações que ela provoca. E fico me perguntando o que eu, sempre na mídia, ou você temos a ver com isso. Será que podemos pensar juntos, apesar das décadas que tentam nos manter separados?

Uma reação frequente, diria que na modinha — wow! —, é a de que os 50 são os novos 30. Para quem, cara pálida? Por mais que a pele do meu rosto agradeça, obrigada, anos e anos de boa hidratação, rotina disciplinada de limpeza e muitos frascos de filtro solar, ignorando o calendário e sem se deixar marcar tanto pelas rugas, meus joelhos, por exemplo, demoram mais para acordar do que a minha cabeça de manhã cedinho. Não me lembro desse descompasso antes, dessa preguiça mais dolorosa do que prazerosa.

Pior quando tento emagrecer e, com ar de consolo pela sanfona da minha cintura, alguém me diz assim: “com a idade, fica mais difícil perder peso mesmo…” Aviso: tudo o que eu mereceria escutar era um novo segredo de dieta, a sugestão de uma aula de Pilates, algo nessa linha do siga-em-frente. Esse tapinha nos ombros, me lembrando piedosamente do tempo vivido e das lentidões do meu corpo, é um tabefe na força de vontade.

Moral da história: ainda bem, os 50 já não são os mesmos, não inauguram a era do chinelo, do esquecimento, da falta de atração (pelo sexo, pelos desafios de trabalho e pela vida). Isso é sensacional e, portanto, bastaria dizer: os 50 são… novos 50, ora bolas!

Outra reação que noto por aí: “nossa, caí para trás, nem parece que você tem essa idade!”. Nessa hora, o elogio cai do lado avesso. Eu me sinto como se estivesse sendo perdoada por ter cometido um pecado. O pecado de envelhecer e, como a alternativa tampouco é das mais virtuosas — morrer? —, sim, envelheço, mas então sou legal porque não aparento estar tão mal como poderia ou deveria.

Pessoalmente, acharia muito mais moderno ouvir: “você está linda aos 50 e poucos”. Ou, vá lá, como nem todos me acham uma belezura, “você está muito bem com a idade de tem.” Ponto. Elogios na linha do “não parece” carregam embutido um preconceito — ah, que bom que não parece… Por quê? O que teria de tão errado se simplesmente parecesse?

Mas o desespero maior me bate quando penso que logo mais irei colocar uma plaquinha no carro, aquela que me dará prioridade nas vagas de shopping centers como se eu, feito um alimento enlatado no primeiríssimo segundo da data de expiração, achasse complicado andar alguns metros a mais até uma escada rolante. Será que isso acontecerá comigo da noite para o dia, vapt-vupt, fui, já era?

A maldita plaquinha terá a mesma imagem que apontará qual seria a minha fila em supermercados, bancos e embarque nos aeroportos. Quer saber? Que imagem mais aterrorizante! Já parou duas vezes para pensar se aquele velhinho de bengala faz algum sentido? Vamos lá, já temos no Brasil acima de 30,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, número que não para de crescer — ainda anteontem, em 2012, eram só 25,4 milhões. Mas será que toda essa multidão está retratada no senhorzinho de bengala?

Já começa por aí: aquele ser humano de 60 certamente é muito diferente dos outros seres humanos de 80 e 90 — e não que estes necessariamente precisem de apoio para dar seus passinhos. Seria igual usar o símbolo de um executivo engravatado para indicar uma fila para pessoas de 16 a 36 anos de idade, algo assim. Coloca no mesmo patamar indivíduos que, do ponto de vista da saúde e da disposição física e mental, estão em condições bem diferentes entre si, focando apenas na cronologia. Ora, eu não usarei bengala daqui a cinco anos. E suportarei filas longas tanto quanto alguém de 18, reclamando junto, eu e ele, pela chatice da espera.

Ah, tem ainda um paradoxo. Sempre me apontam como alguém com muita experiência profissional, especialmente em situações de trabalho. É fato, mas como tudo na vida isso deveria permitir exceções. Envelhecer não é tornar-se um oráculo, sinto informar. Aliás, acredite, é sábio não bancar o sabichão

Muitas vezes, em uma reunião de trabalho, simplesmente quero dizer que ainda não sei nada daquilo que está sendo discutido ali. E por que falo em paradoxo? Porque, com a idade, por um lado eu me sinto muito mais confortável para ter finalmente o meu tamanho — nem maior, querendo aparentar o que não sou ou não sei, nem menor, aceitando que me diminuam. Garanto que passar a se enxergar do tamanho real é uma das vantagens do tal envelhecer.

Por outro lado, quando uma pessoa mais experiente — em português claro, mais velha — diz que não sabe de algo, os olhares são imediatos. Eles entregam que, acham, ela não está atualizada, ela não acompanhou as mudanças. Enfim, ela está por fora. Deveria ser exatamente o contrário: só admite que não sabe de algo quem tem muito o que aprender. Isso, sim, é pura juventude na cabeça. Telômeros a queimar.

Por falar em telômeros… Poderia citar aqui mil coisas que a tal da vivência prolongada escrevendo sobre Medicina me fez conhecer. Dizer que envelhecemos desde que nascemos — verdade! — porque, no núcleo de cada célula, as pontinhas dos cronomossos, que seriam os tais telômeros, vão ficando mais curtas dia a após dia da nossa existência, como a areia caindo em uma ampulheta. E que, encurtadas, fazem tudo se renovar mais devagar.

Poderia, ainda, dar dados de saúde e de doença, jurando que mais antenado é pensar que nunca há saúde absoluta e que muito mais saudável é conviver bem com um problema aqui e outro acolá. Afinal, o tal do tempo dá a oportunidade para que os pepinos de casca grossa plantados na juventude cheguem ao momento da colheita, se me entende.

Talvez, para impressionar poderia apimentar o texto com sexo, quem sabe? A ciência descobriu que o desejo é eterno, olha que lindo. Mergulhe fundo nas substâncias que disparam esse pulso de vida e elas estão todas lá — deliciosamente para sempre. Mesmo que você seja idoso. Aliás, não gosto do termo porque significa quem tem idade demais — e eu me pergunto se seria demais para continuar vivendo ou para ser burro e deixar de viver, perdendo belas chances por aí?

No entanto, nenhuma informação sobre o envelhecer adiantará se os neurônios dão nós enrugados, algo que pode acontecer precocemente, comigo ou com você. Neurônios carcomidos são aqueles que se recusam a rever conceitos e a olhar de igual para igual para o que, de tão vivo, maravilhosamente vivo, se torna diferente com o passar do tempo — em si e no outro.

Lucia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é jornalista e colunista do portal UOL, onde publica sempre às terças e às quintas textos sobre saúde, área que cobre há mais de três décadas e pela qual é apaixonada.
Na Editora Abril, foi da equipe que fundou a Superinteressante e dirigiu por 17 anos a revista Saúde. Já editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física. Tem dois filhos, a Alice, de 21, e o Arthur, de 16. E, já que o tema do texto é a idade, perto deles às vezes se sente com 12, num corpinho de 54 anos, nem mais, nem menos.