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"Engole esse choro, menino"

Os homens vivem prisões que os sufocam e machucam as mulheres com quem convivem. Afinal, como podemos ajudá-los a se transformar?

14.07.2017 - Por Diversidade

Foi essa frase que Ricardo escutou quando era criança, ao saber que seu pai estava se separando de sua mãe e agora moraria em outra cidade. Ele engoliu o choro. E por meses chorou sozinho em seu quarto. Se lembrou disso décadas depois, no divã do psicólogo.

Assim muitos homens são criados, com as emoções bloqueadas, desde muito cedo aprendendo a se trancarem. Recebem a mensagem de que devem ser rígidos consigo mesmos, com os outros, com o mundo.

No belíssimo documentário The Mask You Live In ("A máscara na qual você vive", em tradução livre), que aborda o modo como os meninos são criados hoje, há um trecho especialmente tocante. Um dos especialistas explica que aos 4 ou 5 anos eles já escutam frases claras sobre como devem se comportar e tão cedo quanto aos 10 ou 12 anos, atitudes como não chorar, devolver provocações com socos e buscar se impor nos espaços que ocupam já estão aperfeiçoadas. Se tiver a chance, assista — está disponível no Netflix.

O silêncio e a agressividade, externa ou interna, marcam a juventude de muitos homens. Não à toa, se tornam adultos com altos índices de vícios e aflições mentais, que nem sequer são reportadas. Afinal, "homem de verdade aguenta o tranco".

Esses homens aflitos vão fazer o que puderem para ter o mais alto desempenho em todas as áreas de suas vidas. O topo das corporações e cargos políticos é o destino almejado. Não à toa o masculino é tratado como gênero no poder.

Entretanto, apesar de muitos deles chegarem lá, há uma história esquecida sobre o que acontece nesse caminho marcado pela obsessão por performance e dominação.

Os homens são mais propensos ao vício em álcool, drogas, cigarros. São responsáveis por 95% dos homicídios e ocupam mais de 96% das vagas no sistema prisional brasileiro. Se suicidam quase quatro vezes mais do que as mulheres. Entre os 15 e 30 anos, têm quase quatro vezes mais chances de morrer por causas não-naturais do que uma mulher da mesma idade.

Eles já foram ultrapassados pelas mulheres no tempo de estudo e quantidade de diplomas obtidos nas faculdades, aqui no Brasil mesmo.

Mas há algo estranho nessa conta. Como pode o gênero no poder causar tanto dano a si mesmo, além do que já fazem com as mulheres?

Tendo a pensar que gênero de extremos conta mais a real complexidade enfrentada pelos homens de hoje. Ao mesmo tempo em que dominam diversas esferas, possuem um comportamento autodestrutivo. E para entender como ajudá-los e também como podemos avançar com o movimento pela equidade de gênero, rodei o Brasil com uma equipe de pesquisa ano passado, em parceria com a ONU Mulheres.

Escutamos mais de 20.000 pessoas. O resultado é o documentário Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero, que busca criar pontes de lucidez e parceria, para que possamos caminhar juntos em direção a um mundo mais equitativo. Mapeamos ainda 7 grandes gatilhos de transformação dos homens, os quais explico melhor nessa palestra que ofereci no TEDx.

Equidade de gênero, em termos simples, nada mais é do que cultivarmos relações mais construtivas, amorosas e saudáveis entre homens e mulheres.

Além disso, essa pesquisa nos ajudou a entender que 87% dos homens acreditam que, em alguma medida, o machismo é prejudicial não só para as mulheres, mas também para eles. Compreendemos também que mesmo as pessoas que se declaram mais feministas, ainda possuem comportamentos machistas. Ou seja, estamos todos no mesmo barco.

Ricardo, o homem do começo de minha história, precisou passar por doenças, divórcio e uma crise nervosa antes de entender que "ser homem" não é andar por aí com cara de mau e falando grosso. Para ser homem, basta se sentir homem.

Quando nos libertamos da armadura de uma masculinidade insegura e que precisa se provar a todo momento, ganhamos a chance de viver com mais liberdade, empatia, relaxamento e confiança.

Queria eu ter escutado isso quando jovem. Por isso te convido a compartilhar esse texto com seus amigos e amigas. Converse sobre ele, respeitando o ponto de vista do outro, e não permita que essa discussão se encerre aqui. Que esse texto possa circular por whatsapps, timelines de facebook e e-mails, que não fique restrito a ruminações teóricas.

Acredito que muitos homens querem e podem se transformar. Eles apenas não sabem como. E me alegro de dedicar boa parte de minha vida em ajudar isso a acontecer.

Guilherme Valadares

Guilherme Valadares é fundador e editor-chefe do portal PapodeHomem e co-fundador d'o lugar. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Produtor do documentário "Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero" e membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Há mais de 10 anos trabalha com a transformação de masculinidades.

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