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Eles por elas

Quer um mundo com menos guerras? Dê mais poder às mulheres

13.07.2018 - Por Diversidade

Uma mulher atravessa tropegamente uma pista de dança, esbarra em outra e derruba sua lata de cerveja no chão. A que perdeu a bebida xinga, a outra retruca sem cogitar se desculpar. Começa um empurra-empurra, as amigas da bêbada chegam para avolumar o coro, a trupe da xingadora não deixa por menos. Elas se encaram, se provocam. Quando a primeira levanta o braço, todas as outras a seguem e a briga explode.

Eles por elas

Nunca viu nenhuma cena dessas? Nem eu. Talvez em uma continuação do filme Eu Não Sou um Homem Fácil, comédia francesa da Netflix em que um homem bate a cabeça e acorda em um mundo invertido que não é o de Stranger Things, mas um mais assustador ainda: um em que os papéis estigmatizados femininos e masculinos na sociedade estão trocados.

É claro que mulheres saem na mão, mas seja franco. Nem precisamos de estatísticas para saber que homens são mais violentos. O que acontece no seu bairro é um padrão que se repete em escala geopolítica. Uma guerra é uma briga de bar anabolizada. Ambas parecem um clube do Bolinha porque vivemos em um mundo patriarcal, onde homens ocupam a sala de justiça e homens apertam o botão do caos atômico. E às vezes perdem o controle da coisa toda.

A Primeira Guerra Mundial era para ser, no máximo, um conflito local entre dois países europeus, mas acabou envolvendo mais de 60 milhões de pessoas de dezenas de nacionalidades. Entre as diversas relações sociais, políticas e econômicas entre as potências europeias, havia as motivações pessoais dos líderes envolvidos. Aqui entra a figura de Franz Konrad von Hötzendorf. Ele nutria uma obsessão pela aristocrata italiana Virginia von Reininghaus, que era casada. Por anos, mandou cartas e cartas a ela. Quando a guerra estourou, acreditou que poderia voltar vitorioso e assim conquistá-la de vez. A motivação passional alimentou o anseio bélico de Konrad, que acreditava que a guerra era uma solução para os problemas de seu país. Acontece que Konrad não era um sujeito de coração partido qualquer. Ele era o chefe do Estado-maior do Império Austro-Húngaro, o país que iniciou a guerra. Sua paixão cega ajudou a levar 189 mil comandados à morte só nos primeiros cinco meses de conflito.

Até hoje há debates sobre as consequências da Primeira Guerra, cujo fim completa um século em 2018. Nos últimos anos, muitas obras foram lançadas sobre o tema. A minha preferida é o emocionante Valiant Hearts, um jogo premiado que conta a história de pessoas que vivenciaram a linha de frente e vem recheado de cartas reais deixadas por aqueles que estiveram lá. O jogo está disponível para várias plataformas de videogame e celular. Ao final, você também se perguntará como a competição danosa entre homens que lutam por poder e glória pode arrastar multidões para uma morte horrenda na lama.

Depois da Primeira, veio a Segunda Guerra, ainda pior. E todas as subsequentes, até chegarmos ao caos que reina na Síria hoje. Será que vai ser sempre assim? Talvez não. “Os arranjos sociais e sexuais que favorecem os interesses das mulheres tendem a drenar os charcos onde prolifera a competição violenta entre machos”, escreve Steven Pinker, um dos maiores cientistas do mundo, no livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza, um calhamaço de 1.088 páginas que mostra como a violência diminuiu no mundo (sim, éramos piores quando vivíamos em sociedades pouco complexas). Segundo Pinker, um mundo menos violento começa com o que ele chama de “feminização”. Isso pode ocorrer em diversas frentes. Uma delas é simples: o casamento, desde que a mulher possa casar com quem quiser (ou seja, enlaces arranjados entre chefes tribais, por exemplo, não contam). Em grupos americanos com baixas taxas de matrimônio, os índices de violência são maiores. Um dos motivos é que os homens comprometidos estão investindo nos filhos em vez de competirem por oportunidades sexuais, o que pode aumentar a violência.

Outro fator: diminuir a porção de rapazes sem perspectiva. Estudos sugerem que países com uma maior proporção de homens jovens têm mais chances de travar guerras. Como há jovens em excesso, eles estão mais expostos a um cenário de desemprego e falta de parceiras. Convenhamos. Se você tem 18 anos, não tem trabalho, família nem perspectivas de mudança e vive em uma sociedade muito desigual, as chances de ingressar em milícias ou células terroristas são maiores.

Outra evidência é que ambientes muito masculinizados são mais violentos, do Velho Oeste americano às torcidas organizadas. As cientistas políticas Valerie Hudson e Andrea den Boer, no artigo “A Surplus of Men, a Deficit of Peace” “um excedente de homens, um déficit de paz”, mostram que a tradição de matar recém-nascidas na China resultou em muitos homens sós, e quase sempre pobres, pois os ricos acabavam se casando. Esses “galhos nus”, como são chamados, acabavam se juntando em gangues que aterrorizam vilarejos.

A feminização é uma força de paz. A contribuição mais direta e óbvia é a maior participação de mulheres na política. Elas promovem democracias mais transparentes e priorizam saúde e educação, o que favorece ondas pacíficas. Promover casamentos nos termos da mulher, garantir o controle da mãe sobre a própria reprodução e o direito de meninas de nascer são outras. As partes do mundo onde isso não acontece, lugares em que casamentos forçados, abortos de meninas e tramas de vingança por honra são comuns, são mais violentos.

O que esses estudiosos explicam não é que se as mulheres ficarem 100% no comando o planeta se tornará um aglomerado de Gandhis. Há casos ao longo da história de rainhas belicosas e sanguinárias. A solução, portanto, é o equilíbrio - algo ainda muito longe de acontecer.

Uma das perguntas mais recorrentes que recebo em minha coluna é: “Tudo bem se eu chegar em um cara na balada?”. Afinal, fomos criados para aceitar que essa ação cabe aos homens e que a competição das mulheres é sempre mais sutil e passiva. Sim, a biologia evolutiva explica que machos são mais agressivos na disputa sexual, pois podem ter mais parceiras ao longo da vida, já que não engravidam. Homens são biologicamente programados para a guerra também motivados por essa oscilação de oferta de parceiras (e recursos) que nossos antepassados tinham.

Mas biologia não é carta branca para bombardear o vizinho. Afinal, já faz um tempo que não vivemos mais em cavernas, então podemos tentar equilibrar um pouco essas coisas. Digamos, na competição sexual. Caro amigo solteiro heterossexual, que tal encarar de forma natural se uma mulher tomar a iniciativa e te chamar para sair? Que tal aceitar que nem sempre se pode conquistar a mulher que quiser? Vai que você evita uma guerra, algo que Konrad não fez.

Felipe van Deursen

Felipe van Deursen , jornalista, é editor da revista Mundo Estranho. Responde a dúvidas de comportamento das leitoras da revista Cosmopolitan na coluna “Como Lidar, Felipe?” e tem um blog de história na Superinteressante. É autor do livro 3 Mil Anos de Guerra, que mostra como os conflitos mais esquecidos da história criaram o mundo em que vivemos.

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