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Da escassez à abundância: a inserção da agenda de impacto no empreendedorismo na periferia

Eu sempre gostei de ter uma visão do mundo associada aos contextos de abundância

27.11.2019 - Por Diversidade

Eu cresci em um ambiente escasso do ponto de vista de recursos financeiros, mas extremamente abundante do ponto de vista da originalidade, criatividade e afeto. Venho de uma família liderada por mulheres negras, fui educada pela minha bisavó, avó e mãe. Esse matriarcado define o que sou hoje.

Tive uma falta de figuras masculinas em minha vida, mas ao mesmo tempo uma herança feminina muito forte que me possibilitou, inclusive, ter uma visão empreendedora. Afinal de contas, era a criatividade associada às ações inovadoras da minha bisavó que criava possibilidades de colocar dinheiro na mesa, se apropriando daquilo que ela mais sabia fazer: abrir a nossa dispensa, pegar o que tinha disponível, cozinhar e colocar para vender.

Primeiro foi coxinha, depois vieram as quentinhas, até que ela transformou a nossa sala de casa em um restaurante de comida caseira para atender os comerciantes e operários de obras do bairro onde morávamos, na Praça da Árvore, zona sul de São Paulo. Éramos a única família negra da região e a casa mais simples da rua, ou seja, representávamos a periferia em um bairro de classe média. Logo, tínhamos que usar técnicas de sobrevivência, e uma delas era a Sevirologia — a famosa arte de se virar —, que ajudou a transformar a nossa realidade de escassez de dinheiro em um dos principais negócios de impacto social mais adiante.

Há pouco mais de 17 anos, decidi empreender em uma iniciativa que pudesse dar à comunidade negra a oportunidade de visibilizar as suas invenções. Me virei vendendo peças de roupa usadas nas ruas de São Paulo e, uma década e meia depois, estava entre as 100 pessoas afrodescendentes (e com menos de 40 anos) mais influentes do planeta, em Nova York, fazendo parte de um ranking que incluía estrelas do esporte como Serena Williams e Usain Bolt, além das divas pop Rihanna e Beyoncé.

O empreendedorismo foi a ferramenta que alavancou a minha história de reinvenção. Com pouco mais de 20 anos criei a Feira Preta, um negócio de impacto social que fortalece tendências e empreendedores afrocontemporâneos por meio de eventos e capacitações. A Feira Preta é gerida hoje pela plataforma Pretahub, que com ações focadas no tema da negritude tem como eixos a valorização da cultura afro e o desenvolvimento econômico por meio do fomento ao empreendedorismo negro.

Pretahub é o resultado de dezoito anos de atividades do Instituto Feira Preta no trabalho de mapeamento, capacitação técnica e criativa, aceleradora e incubadora do empreendedorismo negro no Brasil. É a compreensão de que muito já foi feito, mas que o futuro é promissor, vasto e precisa ser olhado a partir da criatividade preta para fazer negócio. Não é apenas potente, mas é o que há de mais criativo e inovador existente nas práticas de um mercado saturado da falta de representação negra e proporcionalidade em seus modos de criar, desenvolver e escoar produtos e serviços. Com atividades em todo o país, pretahub é um hub de inventividade, criatividade e tendência pretas.

Em 2017, junto com uma amiga, criei uma metodologia própria focada em tratar dos temas de equidade racial nas empresas. O projeto “Conversando a gente se aprende” é composto por diálogos criativos e propositivos com instituições privadas, públicas e marcas para sensibilizar e promover a cultura da diversidade racial dentro da organização com informação qualificada, abordagem humana e centrada na qualidade das relações, autoliderança, corresponsabilidade e ações práticas.

Em parceria com a Mandacaru, uma consultoria de comunicação, tenho levado esse programa para empresas como Netflix, Facebook, Google, Bloomberg, Grupo Pão de Açúcar, Banco JP Morgan, entre outras, com o objetivo de proporcionar para estes espaços corporativos a transversalidade da questão da diversidade, sobretudo a racial. A ideia é dialogar com estas marcas sobre a razão de não pensar em negros nas empresas apenas pela lógica da área de recursos humanos. Ou seja: apenas ter negros entre os colaboradores não é o que torna a empresa diversa, mas sim pensar na interação junto às diversas áreas e cargos que compõem uma empresa como um todo.

Hoje, grandes empresas têm muitas dificuldades na contratação e desenvolvimento de carreira de pessoas que representem de fato a pluralidade da população brasileira. Basicamente porque, para isso, precisam transformar sua cultura organizacional em uma cultura de diversidade e inclusão. E isso não é algo simples, principalmente considerando o quanto demoraram — e ainda demoram — para entender a diversidade para além de uma estratégia de reputação, mas como uma estratégia de negócio.

Vocês devem estar se perguntando: “mas, como assim? O que isso tem a ver com as empresas, ou pequenos e médios empreendedores, que passam pela Feira Preta?”

O contexto é o seguinte, eu explico: as grandes companhias já sabem que a diversidade é o que vai manter empresas e marcas em pé. E isso acontece por alguns motivos:

  • Pela agilidade de respostas complexas que uma equipe diversa pode dar aos desafios que surgem no dia a dia
  • Diferentes pontos de vista a respeito de uma mesma situação, certamente, geram mais possibilidades de questionamento e, portanto, melhores resultados
  • O consumidor/cliente, hoje, está mais atento aos produtos e marcas que conversam com a subjetividade das pessoas
  • E, por último, está o conceito de nicho que se tornou o “pulo do gato” das grandes marcas

Ou seja: permanecerão competitivos e relevantes no futuro aqueles empresários que conseguirem atender as especificidades dos mais variados nichos que existem, que por sua vez, se organizam de forma mais firme com a potência de conexão das redes atualmente.

E vocês que estão lendo este texto, podem pertencer a dois grupos:

  1. Aquele que oferece — ou pretende oferecer — produtos, serviços e soluções para um nicho específico de consumidor
  2. Aquele que oferece — ou pretende oferecer — produtos, serviços e soluções para outros empreendedores e empresas, independentemente do tamanho delas

Vou dar um exemplo baseado na minha vivência como empreendedora. A Feira Preta, um dos meus negócios, é reconhecida como o maior evento de cultura negra da América Latina. Dito isso, eu poderia ficar confortável nesse reconhecimento e não me atualizar no que diz respeito aos movimentos da formação cultural desta população, certo? Errado! Afirmo aqui, categoricamente, que a Feira Preta resiste há 18 anos, com altos e baixos justamente por estar sempre se atualizando no que diz respeito à compreensão da diversidade da população negra e, consequentemente, de sua produção.

Dito isso, vou deixar aqui algumas perguntas para você refletir:

  • Caso você tenha funcionários, qual é o perfil deles? Eles são todos brancos? Todos pretos? Todos indígenas? Todos homens? Todos mulheres? Todos jovens? Mais maduros? Existe um equilíbrio de representação entre eles?
  • De quem você compra os insumos, ingredientes, produtos e serviços para sustentar o seu negócio? Quem e como são os seus fornecedores?

Você já parou para refletir sobre tudo isso? Você já parou para considerar o quanto isso pode ser um diferencial nas soluções, produtos e serviços que você desenvolve? Se a sua rede de trabalho for plural, ela estará — naturalmente e constantemente — tirando você dos seus lugares de conforto e, com isso, colaborando para que seu negócio esteja sempre um passo à frente em inovação, inventividade e criatividade. Não tem erro!

Adriana Barbosa

Adriana Barbosa, é a mulher por trás de toda a plataforma Feira Preta. Formada em gestão de eventos, a atuação profissional começou em 1995, na área de comunicação, com trabalhos em emissoras de rádio, produtoras de TV e gravadoras. Percebeu que, enquanto a economia brasileira se desenvolve, também se desenvolve o poder de compra dos afrodescendentes. Com isso em mente, criou em 2002, com pouco mais de 20 anos de idade, a maior feira negra do Brasil. A Feira Preta é o espelho vivo das tendências afrocontemporâneas do mercado e das artes, além de ser o espaço ideal para valorizar iniciativas afroempreendedoras de diversos segmentos. Em 2017 foi homenageada, ao lado de Lázaro Ramos e Taís Araújo, entre os 51 negros com menos de 40 anos mais influentes do mundo segundo o Mipad, premiação mundial.