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Alimentos transgênicos podem ajudar em alergias?

Leite, ovo, amendoim, peixe, frutos do mar, soja, trigo, nozes… provavelmente, em algum momento da sua vida, você já deve ter se deparado com alguém que disse ser alérgico a algum desses alimentos.

02.09.2020 - Por Mundo Agro

Isso porque, segundo dois estudos de meta-análise financiados pela União Europeia, entre 1-5% da população sofre de alguma alergia alimentar clinicamente comprovada, advinda, em sua maioria (90%), dos alimentos listados acima. No entanto, será que a agricultura moderna, com o uso de técnicas de manipulação de DNA, com a capacidade de inserir e remover genes de interesse, pode interferir no potencial dos alimentos em causar alergias? Os alimentos geneticamente modificados oferecem um maior risco de alergias do que os alimentos convencionais?

As alergias são repostas exageradas do sistema imune à presença de um agente externo ao organismo, chamado de alérgeno, que geralmente causa pouco ou nenhum problema à maioria das pessoas. Assim como ocorre em infecções, o organismo reage à presença do alérgeno como algo potencialmente nocivo, tentando combatê-lo por meio da ativação de células de defesa e liberação de substâncias químicas moduladoras da resposta inflamatória. Nas alergias alimentares, o alérgeno nada mais é do que alguma substância presente naquele alimento que desencadeia a reação imunológica, levando ao aparecimento de sintomas como irritações, vermelhidão e coceira na pele, dor e problemas estomacais, vômito, diarreia, dificuldades de respirar, podendo levar a consequências bastante severas, em caso de choque anafilático, no qual a progressão da resposta alérgica é bastante rápida.

Os transgênicos ou OGMs são organismos que tiveram seu DNA modificado, através de uma tecnologia chamada de transgenia, na qual genes específicos são removidos ou genes de outros organismos doadores são inseridos. Dessa forma, os organismos transgênicos passam a manifestar ou silenciar determinada característica proveniente da expressão do gene adquirido ou removido, respectivamente. Na agricultura moderna, plantas transgênicas são pensadas para adquirirem características que confiram algum tipo de vantagem produtiva desde a criação de plantas resistentes a pragas e condições ambientais extremas, até a melhoria da composição nutricional e o aumento de durabilidade dos alimentos. Entretanto, será que a inserção de novos genes e a manifestação de novas características na planta podem produzir novas substâncias alergênicas?

Em sua grande maioria, os genes utilizados para a geração de organismos transgênicos se manifestam no organismo por meio da expressão de uma proteína específica praticamente idêntica àquela produzida no organismo de origem. Portanto, conhecendo-se a proteína no organismo de origem, bem como o seu potencial alergênico, é de se esperar que essa proteína também não cause nenhum tipo de reação alérgica quando produzida em organismos transgênicos. Contudo, para garantir isso, testes para identificar alérgenos conhecidos devem ser conduzidos durante todo o desenvolvimento científico do OGM, segundo as recomendações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), devendo o processo ser interrompido imediatamente caso algum potencial alérgeno seja encontrado. Assim, somente cultivares nos quais nenhum alérgeno diferente da planta de referência foi verificado são aprovados para o uso humano.

Mas será possível ir além e utilizar a biotecnologia para remover genes responsáveis pela expressão de substâncias alergênicas em plantas conhecidas? Sim! Algumas culturas biotecnológicas hipoalergênicas, como têm sido chamadas, já estão sendo desenvolvidas, como é o caso, por exemplo, de uma variedade de trigo com 76,4% menos glúten, um amendoim sem a proteína Ara h 2, tomates sem a proteína Lyc e 3, entre outros cultivares sem as suas respectivas proteínas sabidamente alergênicas. Portanto, tomadas as devidas precauções e agindo com responsabilidade, é possível garantir a segurança dos alimentos transgênicos do ponto de vista do potencial de causar alergias, bem como produzir superalimentos hipoalergênicos que podem beneficiar a sociedade por meio da biotecnologia.

REFERÊNCIAS

ISAAA – Anti-allergy Biotech Crops. http://www.isaaa.org/resources/publications/pocketk/document/Doc-Pocket%20K53.pdf

Food Allergy Information. n.d. How Many People are Affected by Food Allergy? http://www.foodallergens.info/Facts/How_Many.html

FAO
http://www.fao.org/fao-who-codexalimentarius/about-codex/en/

GMO Answers. 2016. How are GMOs Tested for Allergies? https://gmoanswers.com/studies/infographic-how-are-gmos-tested-allergies

GMO Answers. 2014. Are GMOs are Causing an Increase in Allergies? https://gmoanswers.com/ask/are-gmos-are-causing-increase-allergies-submitted-part-gmo-answers-top-consumer-questions-survey

Gallo M. and Sayre R. 2009. Removing Allergens and Reducing Toxins from Food Crops. Current Opinion in Biotechnology 20(2): 191-96. http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0958166909000330

Gabriel Levin

Gabriel Levin é biólogo e doutor em Biotecnologia pela Universidade de São Paulo.