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A maturidade que ganhei por meio da maternidade

Eu comecei a trabalhar fora muito nova, aos 12 anos. Foi meu tio quem me deu a primeira oportunidade de emprego, pela qual sou imensamente grata.

11.05.2020 - Por Diversidade

Eu comecei a trabalhar fora muito nova, aos 12 anos. Foi meu tio quem me deu a primeira oportunidade de emprego, pela qual sou imensamente grata. O que sou hoje profissionalmente é a soma de cada pedacinho dos lugares em que passei e dos clientes que atendi, além de toda minha trajetória acadêmica.

Apesar de sempre ter gostado de crianças, ser mãe era uma meta bem distante dentro do meu planejamento de vida. Casei-me aos 19 e queria trabalhar bastante para ter uma vida estruturada antes de ter filhos. “Nada antes dos 30” – repeti isso por longos anos.

Mas como tudo na minha vida aconteceu precocemente, alcancei muitos objetivos profissionais antes do planejado. Refiz as metas e aos 26 anos fui mãe.

Planejei esse momento. Organizei minhas atividades profissionais e desacelerei um pouco. Primeiro porque queria. Depois, porque precisei.

Antes dos dois anos, percebi que havia algo diferente com a minha filha, então precisei focar na busca pelo diagnóstico e nas intervenções precoces que auxiliariam no seu desenvolvimento. Assim o fiz. Caí de cabeça no mundo desconhecido do autismo. Li todos os livros disponíveis, fiz cursos, assisti a vídeos, li relatos de outras mães.

Meus outros papéis ficaram em stand by por um tempo, mesmo quando eu insistia em trazê-los para o palco, na ânsia de dar conta de tudo, principalmente por ser muito ativa.

Minha jornada foi muito solitária. Eu tive que aprender a acreditar na minha intuição de mãe quando ninguém mais acreditou.

Escrevi este trecho abaixo mais ou menos há quatro anos e expressa exatamente os desafios de uma mãe com um filho especial:

“Meus últimos anos têm se resumido em diagnósticos. Em esperas, suspeitas e possibilidades. Infindáveis idas e vindas para Cuiabá, Rio de Janeiro e tantos outros lugares, inúmeros profissionais, tendo que contar a mesma história a cada um e em cada nova consulta. Aqueles exames chatos, que doem o coração de qualquer mãe.

Aqueles dias na estrada em que dava um aperto no peito, uma ansiedade em não saber o que esperava a gente dessa vez. Medo de não descobrir e medo de descobrir algo. Sei lá, às vezes chega a ser confuso. Mas quando o medo batia, eu erguia o volume do som, olhava para trás e recebia um sorriso lindo seu. Aquela angústia se dissipava, e eu não tinha nada mais a fazer, a não ser agradecer a Deus por todas as oportunidades. A oportunidade de ser sua mãe, de poder cuidar, amar, dedicar meu tempo. É um amor que transborda, ultrapassa qualquer limite.

E hoje, quando alguém me pergunta: ela quase não fala né? Quantos anos ela tem? Parece um bebê ainda, né? Eu não me preocupo em dar respostas. As pessoas que perguntam, não merecem a minha explicação. Afinal, essas pessoas nunca estiveram conosco nos consultórios, nos exames, nos diagnósticos, nas terapias...

Eu sempre agradeci a Deus, sem questionar. Ele sempre me deu muito mais do que eu mereço. E você, minha filha, é a prova disso.

E mais uma vez, as respostas chegam devagar, sempre positivas, lindas como essa luz que você reflete. Deus já te abençoou muito antes de vir a este mundo, e a sua vida vai ser sempre cercada de muito amor!”

De quando escrevi esse texto até hoje, muitas coisas mudaram. A Valentina evoluiu muito e a maternidade me trouxe paciência e serenidade que nenhum outro tipo de experiência havia me proporcionado.

Algumas coisas também continuam difíceis, como sair de casa na presença dela para as minhas viagens. Na maioria, vou depois que ela dorme ou enquanto está na escola, porque o choro é uma certeza em todas elas. Por muitas vezes foi meu também. Chorei na estrada, no voo, no hotel. Mãe sempre sente culpa, mesmo quando está fazendo o melhor que pode. E não é porque o filho é especial ou pequeno. Quando ele crescer, o choro e a preocupação só vão mudar de nome.

Quem me conhece, sabe o quanto minha régua é alta. Imaginem vocês o quanto me cobro para equilibrar a vida pessoal e profissional. Mas como o título deste artigo diz: ganhei maturidade com a maternidade.

Depois de ser mãe, você entende que não é quantidade de tempo e sim a qualidade dele que ficará na memória dos seus filhos.

Voltar para casa depois de uma viagem ou de um dia cheio e saber que alguém te espera com saudade é reconfortante. É bálsamo para o nosso coração.

E sim, você pode ser uma profissional de sucesso sendo mãe. E você pode também ser só profissional ou só mãe ou o que quiser. O importante é que você seja feliz com as suas escolhas.

Sobre as coisas que me motivam: eu amo absurdamente o que faço. É intenso como eu e me sinto satisfeita e realizada. Mas a maior delas é, sem dúvidas, ouvir a Valentina me responder o que quer ser quando crescer:

- Dar palestras e trabalhar no Agro igual a mamãe!

Quando ouço isso, tenho a certeza de que todo meu esforço vale a pena e que cada ausência minha é entendida (ainda que com choro) pelo orgulho que ela sente da profissão que eu escolhi e exerço.

Mariely Biff

Mariely Biff é consultora em sucessão familiar agro na Prossiga Governança Familiar e tem MBA em agronegócios, além de ser mestranda em Direção Estratégica de Empresas Familiares. Coautora do livro Mulheres do Agro, cofundadora da Liga do Agro e colunista no Canal Rural e Agrishow Digital.

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