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A internet nos pressiona a ser feliz?

Hoje a pressão por viajar e se divertir é tão grande quanto a que nossos pais sofriam por ter uma vida estável.

16.06.2013 - Por Gisela Blanco

Hoje a pressão por viajar e se divertir é tão grande quanto a que nossos pais sofriam por ter uma vida estável. Todo mundo quer mostrar fotos em cidades diferentes com filtros lindos no Instagram. Mas será que viajar é tão importante assim?

Outro dia, em uma conversa com amigos em um grupo de e-mails, falávamos sobre como a nossa geração está cada vez mais nômade. Temos uma obsessão por ser feliz e viajar, curtir a vida. E mostrar para todo mundo ver. Por isso há dias em que nossas timelines viram uma bela coleção de gente feliz e sem problemas eternizadas em fotos com filtros coloridos (e sépia e Polaroid). Como disse um amigo naquela troca de e-mails, parece que estamos vivendo eternamente em um comercial da Coca-Cola. Se formos nos basear nas fotos dos amigos no Face ou no Instagram, parece que todos comem todo dia nos melhores restaurantes e vivem numa longa viagem ao redor do mundo.

Mas eu e você sabemos que a realidade é bem menos atraente.

Outro dia comentei no Facebook as fotos de viagem de uma amiga com o namorado pelo interior da Itália. Pareciam tão felizes. Lindos, no paraíso. E aí a amiga veio e me disse em particular: “na verdade foi horrível, brigamos durante a viagem inteira”.

As fotos dela mentiam. Como tantas outras minhas, suas e de todos os nossos amigos mentem diariamente. Por quê?

A internet nos faz mentir. Criar uma ideia de vida perfeita que gostaríamos de ter. Seria simples pensar que é para enganar nossos amigos e deixar nossas timelines coloridas e radiantes. Mas quem enganamos somos a nós mesmos. Secretamente, pensamos que vamos olhar para nossos perfis e pensar que fomos felizes. E que as pessoas gostam mais de nós agora que nossa vida é tão divertida. Mas ninguém vive de verdade no comercial da Coca-Cola.

Voltemos às viagens. Não sou contra elas. Mas não acho que elas devam ser uma desculpa para postar fotos bonitas na internet. Nem usadas como simples válvula de escape.

Às vezes me parece que a nossa geração vive à procura de rotas de fuga. Está ruim aqui, então vamos fazer um curso de inglês em algum lugar e aproveitar para tirar muitas fotos e mostrar que nossa vida é divertida. Quem sabe largar a faculdade ou emprego e passar uma temporada em outro país vai deixar para nossos amigos a impressão de que somos vitoriosos, de que não estamos desistindo de nossos desafios na nossa cidade, mas partindo para outros muito mais emocionantes. Ou simplesmente fugimos porque não conseguimos suportar a estabilidade. Nos cansamos fácil de tudo. E montamos o sorriso só na hora da foto.

Não atiro a primeira pedra - já dei minhas fugidinhas também. Já tranquei a faculdade e fui sozinha fazer mochilão pela Europa. Larguei um emprego estressante em uma cidade para ir morar em outra maior. E fui embora com aquela sensação incipiente de vitória antes mesmo de saber se a minha situação seria melhor no novo destino. Até hoje, vez por outra, me pego distraída me sentindo levemente superior aos meus colegas que escolheram ficar na nossa cidade natal. Ou pelo menos mais corajosa.

Não deveria. Valorizar mudanças por si só, como símbolo de felicidade, é tão superficial quanto a pressão que nossos pais e avós sentiam por ter uma vida estável. “Viaje o mundo inteiro” é o novo “faça engenharia ou medicina” dos nossos dias. O escritor Mário Quintana dizia que viajar é trocar a roupa da alma. Mas queremos trocar de roupa tanto assim? E mais: precisamos mostrar para nossos amigos a cada troca?

Nem um nem outro. O importante mesmo é ter estabilidade emocional. E valorizar a vida real sem deixar de nos perguntar o que realmente queremos. Note: isso não é se acomodar. Mas aprender a lidar com as dificuldades que surgem onde quer que você esteja e valorizar aquilo que já tem.

Se você precisa sair da sua zona de conforto para se encontrar, tudo bem. Mas a viagem não pode ser um fim em si próprio. As descobertas que fazemos nela, os amigos que conhecemos e as experiências que passamos, sim. Que, é bom ressaltar, podem ser boas ou ruins.

Por isso, não se sinta triste ou menor diante daquelas fotos lindas dos seus amigos. Admire, curta, comente se quiser. Mas tenha em mente que elas podem não fazer parte da realidade. E, principalmente: se dê ao direito de ter a mesma vida de sempre sem se sentir culpado por isso. De ficar no mesmo emprego, de ter os mesmos amigos. Ou de não fazer nada nas férias, de ficar no sofá o dia inteiro se quiser. Você tem esse direito. #vidareal

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